terça-feira, 29 de julho de 2008

Superação em Duas Patas

Há alguns anos, um dos principais passatempos enquanto andava de ônibus era contar quantos cachorros eu via na rua. Na época, haviam muitos deles, que estavam se reproduzindo como coelhos. Eram tantos, que chegava ao cúmulo de, em uma viagem Pirambu-Centro, contar mais de quarenta deles.

Em um desses dias, vi algo, no mínimo, peculiar:

Uma cadela no cio corria feito louca, fugindo de uma matilha de cães sequiosos e cheios de amor para dar. Obviamente, o primeiro que chegasse à fêmea teria vantagens sobre ela em detrimento aos outros, fazendo com que a correria fosse verdadeiramente desvairada. Foi quando, surgindo da orda de animais afoitos, emergiu um certo cachorro.

Ele era menor que a maioria, mas corria mais depressa que qualquer um. Seu pêlo era de um amarelo desbotado, tinha a língua pendurada para o lado, olhos esbugalhados e felizes, de quem sabe que vai conseguir o que quer. Mas o que me chamou a atenção não foi somente a determinação e velocidade do cachorro. O que me fez colocar a cabeça para fora da janela para observar melhor era o fato desse bicho andar de cadeira de rodas.

O cão tinha as patas traseiras amputadas, mas alguém havia feito uma cadeirinha de madeira para ele, com rodas de algum skate velho. Fiquei absolutamente fascinada com o fato do bicho superar suas limitações com uma simplicidade desconcertante. Ele adaptou-se à cadeirinha de uma forma que não havia concorrente no mundo que conseguisse ultrapassá-lo. Ele era realmente um cão feliz.

Fiquei pensando durante muito tempo o quanto deixamos que nossas limitações nos afetem. Depois fiquei pensando no porque de nunca ter conjecturado sobre isso quando vi uma pessoa de cadeira de rodas. Cheguei à conclusão que a racionalidade nos faz pensar demais no que não conseguiremos fazer em vez de no que deveríamos fazer.

Pensei sobre isso muitos dias depois daquele. Torci muito para que o cãozinho tenha conseguido seu objetivo. Mas como minha mente sempre tem que viajar em coisas sem sentido, comecei a me questionar em como diabos ele conseguiria cruzar com a cadela fujona. Sério, como? O_o
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Eu não tenho jeito mesmo. -_-

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Pobre Diana

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Dentro de Diana havia uma outra pessoa morando e ela não sabia.
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De vez em quando sentia algo diferente, que não era seu, mas jamais iria desconfiar que havia alguém vivendo nela.
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Quando achava que estava tudo bem, de repente, após tomar uma xícara de leite ou colocar de volta um livro na estante, a visão turvava e Diana era tomada por pensamentos que não sabia de onde vinham. Novas percepções surgiam - e emoções também - a fazendo ponderar sobre tudo que existia em sua vida. Era isso mesmo que queria?
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Pobre Diana, julgou que era uma epifania, mas era apenas alguém vivendo dentro dela.
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Várias mudanças na vida Diana fez: vendeu a casa, pagou as dívidas, largou o namorado e deixou-se ser levada pelo vento. Mas ela ainda não estava satisfeita. Havia uma outra pessoa dentro dela, de vontades contrárias, de vontades mais fortes.
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Amigos foram magoados, o grande amor esquecido, sua vida de cabeça para baixo e porquê? Tudo porque havia alguém dentro dela.
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Quando finalmente Diana começou a perceber, era quase tarde demais. Ela já havia se tornado essa outra pessoa, e a própria Diana passou a viver dentro dela. De arrependimento, a moça chorou, chorou e chorou, pois não conseguia voltar a sair da outra pessoa, maldita que tomara seu corpo. Deixou-se enganar por si mesma, deixou-se levar por impulsos, deixou-se afundar em pensamentos sórdidos.
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Pobre Diana, quando terminou de perceber, era já tarde demais.
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Tudo porque não viu, não sentiu, não ouviu, que a outra pessoa era a mesma e pobre Diana.