Quem conhece minha mãe, sabe que ela é um amor de pessoa. Trata bem todos os meus amigos, sem distinção de raça, credo ou cheiro. Sempre esforçou-se para que todos crescêssemos felizes, bem nutridos e educadíssimos, sem excluir nem mesmo a criança grande que é meu pai. Sua dedicação à família foi tal, que, em um dos poucos dias em que seu mérito foi posto à prova, a mulher saiu totalmente do sério.
Seria um dia comum para mamãe, começo do ano de 1994. Administrava a casa como um quartel, cuidava do sogro doente, seu marido trabalhava como um louco e seus três filhos estavam em colégio novo e sofisticado, na Aldeota. Acreditava que aquela escola seria o melhor para suas crianças, já que tinha uma excelente estrutura, coisa que a antiga escolinha de bairro, onde eles estudavam antes, não possuía.
Quando teve tempo para sentar-se e assistir televisão, o telefone toca.
- Alô?
- Alô, D. Fátima?
- É ela.
- Aqui é a coordenadora do colégio de seus filhos, a senhora poderia vir aqui?
- Hein? O que houve? Aconteceu alguma coisa com eles?
- Não, não, digo, não fisicamente... O Álvaro Neto e o Vicente foram levados para a coordenação por indisciplina e a psicóloga gostaria de conversar com a senhora... Pode ser?
- Psicóloga?
- É...
- Tá, em meia hora chego aí.
Arrumando-se depressa, a mulher pegou um táxi, imaginando o que poderia ter sido. Chegando lá, dirigiu-se imediatamente para a coordenação, onde foi encaminhada para a sala da psicóloga do colégio. Ao abrir a porta, viu seus filhos sentados cabisbaixos e a psicóloga escrevendo em um papel.
- Olá, D. Fátima, estava a aguardando!
- O que eles fizeram?
- Sente-se, por favor. Sou a Dr. Fernanda.
- O que houve?
- Bem, seus filhos foram encaminhados para a coordenação porque o mais novo, o Vicentinho, xingou uma coleguinha a mando do irmão.
- O que tu disse, menino? – peguntou mamãe para o caçula.
- Chamei ela de filha de prostituta.
Silêncio. A psicóloga dirige-se, então, para a criança de 8 anos de idade:
- Vicentinho, porque você chamou a sua coleguinha de filha de prostituta?
- Porque o Neto mandou.
- Se o Neto te mandar comer cocô, você vai comer?
- Ele não vai mandar...
Álvaro Neto, de 10 anos, balança a cabeça negativamente, enquanto a mãe controla-se para não rir. A psicóloga, tentando ignorar a reação de minha mãe, continua:
- Neto, porque você mandou seu irmão xingar a menina de filha de prostituta? – a mulher continuava repetindo o xingamento, talvez para enfatizar a gravidade da situação para a responsável pelas crianças.
- Mandei porque a mãe dela é uma prostituta, ué.
Nessa hora, minha mãe não se agüentou e começou a rir. A funcionária do colégio, mordida, perguntou:
- D. Fátima, a senhora acha que dá a educação apropriada para seus filhos?
Foi como jogar um cigarro em um barril de pólvora.
- COMO É QUE É?????? Você ta querendo dizer que educo mal meus filhos??? Eles NUNCA tinham xingado ninguém assim até entrar nesse colégio!!! Eu que pergunto que tipo de educação vocês dão!!!!!
- Mas a senhora riu da história toda, nem parece que se import...
- É CLARO QUE EU ME IMPORTO!!!! Agora você, sua imitação de médica, podia só ter me ligado e me dito! Me fez me tacar lá de onde o Judas perdeu as botas pra ficar me dando lição de moral??? E ainda vem dizer que educo mal meus filhos??? TÁ FICANDO DOIDA??????
- Claro que não quis dizer isso, eu só...
- VOLTEM PRA SALA DE VOCÊS!!! – ordenou a enfurecida mulher para as crianças, que saíram correndo. – E você, DOUTORA, só me chame aqui de novo quando eles, NO MÍNIMO, quebrarem o braço de alguém!!!
- Sim... senhora...
Mamãe saiu furiosa do colégio, indo para uma lanchonete esperar as aulas dos filhos terminarem. Uma hora e meia depois, saímos os três e demos de cara com ela, esperando no portão. Eu não sabia de nada e meus irmãos, tampouco, comentaram. Fomos em silêncio no ônibus, sem nada para dizer.
Chegando em casa, mami me mandou para o quarto e chamou os dois meninos para conversarem.
- Venham cá, crianças...
Os dois, ingênuos, aproximaram-se.
- SEUS ÍNDIOS!!!!! SELVAGENS!!!!! FICAM ME FAZENDO PASSAR VERGONHA!!! ONDE FOI QUE APRENDERAM ESSAS COISAS, SEUS BICHOS??? QUEM ENSINOU???? SE FIZEREM ISSO DE NOVO EU PENDURO VOCÊS NO ARMADOR DE REDE PELAS CUECAS!!!! OUVIRAM???? OUVIRAM BEM??????? BANDO DE ANIMAIS, NÃO FOI ASSIM QUE CRIEI VOCÊS!!!!!! FOI??? FOOOOI????
- Não, mãezinha, não foi!!! – respondeu Álvaro Neto, assustado.
- Não, não!!! – disse Vicente.
- VÃO FAZER ISSO DE NOVO????????
- Não!!!
- Não vamos!!!
- Ótimo, então dêem um abraço na mãezinha! Coisas lindas! Mãezinha ama vocês, viu?
- ...
- ...
- Agora, meus filhos, se a menina é filha de prostituta, vocês não devem ficar gritando pelos cantos... Entenderam?
Seria um dia comum para mamãe, começo do ano de 1994. Administrava a casa como um quartel, cuidava do sogro doente, seu marido trabalhava como um louco e seus três filhos estavam em colégio novo e sofisticado, na Aldeota. Acreditava que aquela escola seria o melhor para suas crianças, já que tinha uma excelente estrutura, coisa que a antiga escolinha de bairro, onde eles estudavam antes, não possuía.
Quando teve tempo para sentar-se e assistir televisão, o telefone toca.
- Alô?
- Alô, D. Fátima?
- É ela.
- Aqui é a coordenadora do colégio de seus filhos, a senhora poderia vir aqui?
- Hein? O que houve? Aconteceu alguma coisa com eles?
- Não, não, digo, não fisicamente... O Álvaro Neto e o Vicente foram levados para a coordenação por indisciplina e a psicóloga gostaria de conversar com a senhora... Pode ser?
- Psicóloga?
- É...
- Tá, em meia hora chego aí.
Arrumando-se depressa, a mulher pegou um táxi, imaginando o que poderia ter sido. Chegando lá, dirigiu-se imediatamente para a coordenação, onde foi encaminhada para a sala da psicóloga do colégio. Ao abrir a porta, viu seus filhos sentados cabisbaixos e a psicóloga escrevendo em um papel.
- Olá, D. Fátima, estava a aguardando!
- O que eles fizeram?
- Sente-se, por favor. Sou a Dr. Fernanda.
- O que houve?
- Bem, seus filhos foram encaminhados para a coordenação porque o mais novo, o Vicentinho, xingou uma coleguinha a mando do irmão.
- O que tu disse, menino? – peguntou mamãe para o caçula.
- Chamei ela de filha de prostituta.
Silêncio. A psicóloga dirige-se, então, para a criança de 8 anos de idade:
- Vicentinho, porque você chamou a sua coleguinha de filha de prostituta?
- Porque o Neto mandou.
- Se o Neto te mandar comer cocô, você vai comer?
- Ele não vai mandar...
Álvaro Neto, de 10 anos, balança a cabeça negativamente, enquanto a mãe controla-se para não rir. A psicóloga, tentando ignorar a reação de minha mãe, continua:
- Neto, porque você mandou seu irmão xingar a menina de filha de prostituta? – a mulher continuava repetindo o xingamento, talvez para enfatizar a gravidade da situação para a responsável pelas crianças.
- Mandei porque a mãe dela é uma prostituta, ué.
Nessa hora, minha mãe não se agüentou e começou a rir. A funcionária do colégio, mordida, perguntou:
- D. Fátima, a senhora acha que dá a educação apropriada para seus filhos?
Foi como jogar um cigarro em um barril de pólvora.
- COMO É QUE É?????? Você ta querendo dizer que educo mal meus filhos??? Eles NUNCA tinham xingado ninguém assim até entrar nesse colégio!!! Eu que pergunto que tipo de educação vocês dão!!!!!
- Mas a senhora riu da história toda, nem parece que se import...
- É CLARO QUE EU ME IMPORTO!!!! Agora você, sua imitação de médica, podia só ter me ligado e me dito! Me fez me tacar lá de onde o Judas perdeu as botas pra ficar me dando lição de moral??? E ainda vem dizer que educo mal meus filhos??? TÁ FICANDO DOIDA??????
- Claro que não quis dizer isso, eu só...
- VOLTEM PRA SALA DE VOCÊS!!! – ordenou a enfurecida mulher para as crianças, que saíram correndo. – E você, DOUTORA, só me chame aqui de novo quando eles, NO MÍNIMO, quebrarem o braço de alguém!!!
- Sim... senhora...
Mamãe saiu furiosa do colégio, indo para uma lanchonete esperar as aulas dos filhos terminarem. Uma hora e meia depois, saímos os três e demos de cara com ela, esperando no portão. Eu não sabia de nada e meus irmãos, tampouco, comentaram. Fomos em silêncio no ônibus, sem nada para dizer.
Chegando em casa, mami me mandou para o quarto e chamou os dois meninos para conversarem.
- Venham cá, crianças...
Os dois, ingênuos, aproximaram-se.
- SEUS ÍNDIOS!!!!! SELVAGENS!!!!! FICAM ME FAZENDO PASSAR VERGONHA!!! ONDE FOI QUE APRENDERAM ESSAS COISAS, SEUS BICHOS??? QUEM ENSINOU???? SE FIZEREM ISSO DE NOVO EU PENDURO VOCÊS NO ARMADOR DE REDE PELAS CUECAS!!!! OUVIRAM???? OUVIRAM BEM??????? BANDO DE ANIMAIS, NÃO FOI ASSIM QUE CRIEI VOCÊS!!!!!! FOI??? FOOOOI????
- Não, mãezinha, não foi!!! – respondeu Álvaro Neto, assustado.
- Não, não!!! – disse Vicente.
- VÃO FAZER ISSO DE NOVO????????
- Não!!!
- Não vamos!!!
- Ótimo, então dêem um abraço na mãezinha! Coisas lindas! Mãezinha ama vocês, viu?
- ...
- ...
- Agora, meus filhos, se a menina é filha de prostituta, vocês não devem ficar gritando pelos cantos... Entenderam?
- Mas ela é, mãezinha...
- Sim, mas é feio xingar, mesmo que a pessoa mereça...
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E era assim que aprendíamos nossas lições. A psicóloga ligou para minha mãe outras vezes nesse ano, mas aí são outras histórias.

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