terça-feira, 1 de janeiro de 2008

A Nova Chance de Simone

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Simone abriu os olhos e encarou o céu do novo ano que chegara. Uma garrafa vazia de champanhe ainda estava na sua mão suja de comida, enquanto a outra mão moveu-se para afagar seu noivo, desmaiado. Eles e alguns amigos resolveram passar o ano em cima da caixa d'água do prédio mais alto da região, pois, desta forma, veriam melhor os fogos de artifício da praia ao longe e ainda poderiam fazer tudo o que, lá embaixo, era ilegal.

Sentou-se, pouco ligando para seu vestido amarrotado e a cabeça cheia de areia, pois tudo aquilo que queria ver era o primeiro nascer do sol. Largou a garrafa e o noivo, enlaçando os joelhos com os braços doloridos da festa de ontem. Mal conseguia lembrar dos fogos de artifícios da passagem de ano, pois, dentro da sua cabeça, os fogos eram bem mais brilhantes e ensurdecedores. A mente doía, mas era algo além do físico, pois as lágrimas que vieram aos seus olhos não eram de dor.

Aquele sol era o mesmo sol desde que o mundo era mundo, mas, para Simone, era o primeiro sol de sua vida. Tivera um sonho perturbador e nostálgico, de quando a vida não era difícil e do tempo em que ela tinha controle sobre si mesma. E era tão jovem... Como podia ser isso?

Levantou-se. Olhou para o noivo no chão, coberto da fuligem que ela não queria mais para si. Uma nova chance surgiu. Quando isso poderia acontecer de novo? No próximo ano? Não... Ela não poderia esperar mais tempo. Não de novo. Era agora, naquele momento, naquele segundo, em que ela voltaria a ser quem era antes. E, desta vez, não deixaria nada, nem os belíssimos fogos de artifício distraírem-na de seu caminho.

Ela desceu pela escada de incêndio. Procurou algum dinheiro, mas não havia nada, fora-se tudo com aquela fuligem. Dirigiu-se a um telefone público e discou um número o qual teve de se esforçar para lembrar, de tanto tempo em que não o utilizava. Um homem atendera. Silêncio.

- Filha?
- É... que eu... Eu sei que eu...
- Só me diga onde você está que eu pego você agora mesmo.
- Certo...

A jovem de 16 anos sentou-se no meio-fio e esperou. Se existem tantas pessoas que conseguem mudar de vida, por que ela não conseguiria? Se tanta gente conseguia emagrecer, fazer o que promete, estudar mais... Por que ela não conseguiria ser a menina que era há dois anos, escrevendo um diário e sonhando, apenas sonhando?

Ele chegara. Seu pai a olhou pela janela e foi como se nada tivesse acontecido. No banco de trás, o beagle de pêlos castanhos possuía um leve traço de reconhecimento em seu olhar canino... Talvez lembrasse da garotinha que, um dia, implorou aos pais para levá-lo para casa. Nessa hora, quase conseguiu sentir o cheiro da comida de sua mãe, aquela que jamais comeria novamente. As lágrimas retornaram aos seus olhos, pois não entendia como pôde ter trocado aquilo tudo pela vida insípida que estava levando.

Entrou no carro. Olhou para o senhor, que apenas sorriu e deu a partida. Ela estendeu a mão para seu cachorro, que a cheirou, desconfiado. Ela sorriu. Nesse momento, o beagle pulou para o colo de Simone, a lambendo, a perdoando.

Sim, ela conquistou outra chance. No sorriso de seu pai, no abanar do rabo de seu querido cãozinho, ela conquistou outra chance. E não ia deixar essa chance escapar de jeito nenhum.

2 comentários:

gâo disse...

Este tipo de conto sempre me parece mostrar a cruel realidade que acontece no nosso mundo, misturado com uma metáfora do dia a dia mais comum de alguns de nos!

Caetano disse...

o pior é que tava tão "bunitim" no começo que eu não esperava pelo tapa da realidade.