segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

A Moeda Assassina de Dez Cruzados

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Vocês lembram de uma moeda gigante que tinha antigamente? Uma de dez cruzados? Era uma monstra enorme, redonda e prateada, que no fim na vida, auge da mega-inflação, não valia um décimo do que o Banco Central gastava para fabricá-la. Lembro muito bem dela, mas, principalmente, porque foi responsável por um dos mais marcantes momentos onde eu encarei a morte, escapando com bravura e sorte.
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Para começo de história, simplesmente odeio engasgar. O problema é que vivo engasgando. No afobamento que é peculiar à minha família, a quase-morte por objetos estranhos adentrando em nossos pulmões é bastante comum. As famigeradas balas-soft já tentaram me levar dessa vida, mas não chegaram nem perto da temível moeda de dez cruzados.
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Estava eu deitada na rede, pensando na vida, quando vi uma moeda solta no chão. Apanhei os cruzados mortais e, como era uma total porca imunda, taquei a moeda na boca e fiquei chupando-a. Aham, até parece que vocês nunca colocaram algo nojento na boca!
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Pensamento vai, pensamento vem, o objeto cheio de micróbios escorregou ardilosamente para minha garganta, entalando no esôfago na horizontal, onde nenhuma fresta de ar conseguia passar. Tomada pelo desespero, levantei-me da rede em um pulo, correndo para a cozinha, onde estava a única pessoa que poderia me salvar: minha mãe. Não pensem que cheguei a essa conclusão utilizando-me de meu raciocínio, pois não conseguiria somar 1+1 naquele momento. Acho que meu instinto disse-me que eu precisaria de alguém bruto o suficiente para salvar minha vida. Que outra pessoa seria, se não minha mãe?
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Cheguei na cozinha já roxa, lacrimejando e quase desfalecendo com a mão na garganta. Mamãe, entendendo na mesma hora o que estava acontecendo, correu até mim. Total entendedora das técnicas de primeiros socorros, com a adrenalina à mil, a mulher chegou por trás de sua filha agonizante e fez o que pensou ser mais lógico: desferiu a porrada mais certeira que levei nas costas em toda a minha vida. Com os punhos fechados, deu um murrão tão potente em meus pulmões que a moeda voou longe.
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Mal pude aproveitar o alívio de sentir o oxigênio novamente no meu corpo, pois fui ao chão mediante o golpe truculento de minha progenitora. Ela, ajoelhando-se, segurou em meus ombros e, com o olhar assustado, perguntou com toda delicadeza:
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- TU É DOIDA??? TU BEBE GÁS PRA FICAR COM MOEDA NA BOCA, BICHA NOJENTA???
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E, em seguida, me abraçou. Sei que, apesar do grito, ela ficou extremamente nervosa, então não fiquei nem um pouco chateada. De qualquer forma, mamãe fez-me prometer que jamais poria uma moeda novamente na boca, deu um tremendo sermão sobre germes e bactérias, não esquecendo, claro, de me ameaçar.

Meu pai, sem perder nada, guardou o objeto do engasgo junto à sua coleção de moedas brasileiras, colocando-a bem próxima de uma da época de D. Pedro II. Não me pergunte porque raios ele guardou a moeda, mas, se um dia você for lá em casa, eu mostro toda a coleção e a moeda assassina de dez cruzados, que ainda está lá para contar a história. É só pedir.

5 comentários:

K-09 disse...

Só tenho duas coisas a te dizer:
NOJENTA, DOIDA!

guilardo disse...

Pra variar muito boa a historia. Eu colocava moedas na boca tbm, quando novinho. So tinha o bom senso (se é q existe bom senso em colocar uma moeda na boca :P) de nunca fazer isso deitado.
Bjão

Caetano disse...

Acho que o teu pai deve ter pensado naquele ditado... Mantenha os amigos perto e os inimigos mais perto ainda...

Gustavo disse...

eu acho que foi Gás!

Camila disse...

Chell, teu blog deveria ter um subtítulo: "Coisas que Só Acontecem Comigo".
A propósito, as Balas Soft já tentaram me matar algumas vezes também. Bem como as Maluquinhas. Mas nunca tive um episódio com uma moeda assassina!!!
Doida!!!