quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Meu Primeiro Amor

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Um dos relacionamentos amorosos mais sinceros que eu tive na minha vida foi com um garoto chamado Tiago. Ele era carinhoso, gentil, bonito, inteligente, engraçado e ainda sabia dançar. A primeira vez em que prestei atenção nele foi quando um colega meu, da cadeira ao lado, comeu minha massinha de modelar vermelha, impossibilitando-me de continuar esculpindo as pétalas da flor que estava construindo.

Bem, sim. Eu tinha quatro anos de idade.

Lembro que meninos, para mim, não passavam de criaturinhas perturbadoras que gostavam de puxar meu cabelo - a exemplo de meus irmãos mais novos. Mas, quando o Tiago, sorrindo, estendeu sua tirinha de massa de modelar vermelha, percebi que poderia haver algo sobre os homens que eu ainda não sabia.

Como eu era muito tímida, não tinha amigos e sentia-se deslocada no Maternal. Mas, desde o dia em que percebi Tiago, mal podia esperar para chegar à escola. Tornamo-nos os melhores amigos. Brincávamos juntos no recreio e sempre sentávamos ao lado na sala de aula. Dividíamos a lancheira, divagávamos sobre como os "fazedores de televisão" conseguiam enfiar pessoinhas tão pequenas dentro da TV e chegávamos até a especular sobre o preço de venda de nuvens no mercado, caso conseguíssemos pegar uma, claro. Por fim, decidimos que estávamos namorando, mas sem beijar na boca porque isso era coisa de adulto nojento.

No dia das Crianças, a professora resolveu fazer uma pecinha sobre a música "A Pulga e o Percevejo". Sem pestanejar, ela determinou que eu faria a Pulga e Tiago faria meu marido Percevejo. Lembro que fizeram para mim uma linda roupinha de papel crepom de bolinhas vermelhas, pintaram meu rosto e disseram-me como dançar. Mas, como eu ainda era muito tímida, bem na hora de entrar no palco, desisti. Foi quando Tiago aproximou-se de mim, pegou a minha mão nas suas e disse: "Eu não sei como é uma pulga, mas acho que tu não parece uma pulga, porque tu é grande e bonita. Também não acho que eu pareço um perc... 'percebeju'." E ele me puxou pro palco. Aquela foi a primeira vez em que realmente percebi a existência de sentimentos maiores. A primeira vez na qual disse para mim mesma: "É, eu gosto desse menino". E lembro, como se fosse hoje, que o meu coração foi à mil por hora. E não era porque estava entrando no palco.

No ano seguinte, fomos separados pelos meus pais, que se mudaram para Fortaleza. Mais outro ano depois de nossa separação, minhas lembranças sobre a sua doçura tornavam-se, apenas, lembranças distantes. Cresci, amadureci, conheci outros garotos e constatei, outras vezes: "É, eu gosto desse menino". Nunca mais vi Tiago. Também não sabia como ele estava.

Até Fevereiro deste ano.

Estava eu trabalhando, quando um rapaz veio até mim para pedir uma informação sobre um produto. Como sou muito boa fisionomista, tinha certeza absoluta que já havia visto aquele homem antes. Ele percebeu minha expressão e perguntou: "A gente se conhece de algum lugar?". Respondi-lhe que ele não me era estranho, mas não conseguia me lembrar. Foi quando ele avistou meu crachá.

"Michelle... Eu já estudei com uma menina chamada Michelle quando era pequeno."
"Como é seu nome?" - perguntei.
"Tiago."

Nesse momento, eu lembrei. Voltei no tempo e lembrei do Tiago, o meu Tiago, do Maternal. Acredito que a surpresa ficou tão óbvia em meu rosto, que ele sorriu e disse:

"Vai me dizer que você foi minha Pulga?"

Parece até mentira que eu lembre tanto de algo que aconteceu há tanto tempo. Principalmente, um reencontro como esse. Mas foi verdade, a mais pura verdade. Sei que falamos apenas cinco minutos e nos despedimos novamente. Não sei que homem ele se tornou e, tampouco, ele sabe que mulher eu me tornei. Para falar a verdade, eu não quis estender demais aquela conversa. Porque, apesar de ele ainda possuir mesmo sorriso, eu não sabia o que poderia encontrar ali. E, definitivamente, prezo demais a lembrança de meu primeiro amor para continuar conversando com aquele Tiago.

Pois ele não era mais o meu Tiago.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

O Vôo de Carolina

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Carolina tinha certeza de que podia voar.

Sua certeza era tanta que ela poderia duvidar de todas as factualidades do mundo, menos de que podia voar. Assim como o Universo é infinito, como o Céu é azul e como ela amava o Paulo. De todas essas certezas, a mais absoluta de todas era a que ela possuía o poder de voar. O único problema é que ela nunca havia estado pronta. Até àquele dia.

Do alto da colina, Carolina olhava para a imensidão do mar e sentiu-se extremamente feliz por seu dia ter chegado. Sentindo a grama sob seus pés, lembrou-se de quando percebeu - há muito anos - que esse poder era instrínsceco de seu ser. Era ainda uma menininha, quando acordara de um sonho perturbador e percebeu que havia caído alguns centímetros sobre sua cama. Sim, ela flutuou dormindo. Como ninguém nunca acreditou, ela considerou que devia ser um segredo entre ela e alguém, que, algum dia, haveria de conhecer.

Desde aquele momento, talvez epifânico, Carolina tentara voar novamente, sem sucesso. Procurou lembrar-se do sonho que tivera, mas ele nunca se mostrou novamente. Depois de todas as tentativas frustradas, Carolina não desanimou, muito pelo contrário. Essa era a prova pela qual deveria passar para conquistar o direito de voar. Sim, era isso. Mas tudo deveria ser feito com muita cautela, pois ela não queria morrer. Seria ridículo se, depois de tudo, ela estragasse tudo morrendo. Carolina só tentaria voar de verdade, do alto mesmo, quando acordasse em uma manhã e soubesse que aquele era o seu dia.

E o seu dia chegou.

Paulo estava no estábulo, cuidando dos cavalos. Ele a levara naquela viagem com o intuito de pedi-la em casamento, o que ela já sabia. Tão meigamente previsível. Além do mais, ela sempre tivera o talento nato para entender as pessoas antes delas mesmas. Sua resposta já estava pronta - um "sim" - mas ela só seria dada após o momento mais aguardado de sua vida. Ela voaria. Então, depois de saber o que existe além de seu sonho, aceitaria a proposta de Paulo.

É incrível como as coisa simplesmente acontecem quando é para que sejamos felizes. - pensou Carolina.

Carolina respirou fundo e olhou para o horizonte. Extasiada, quase estava sentindo seus pés deixando de tocar o chão. O vento soprou mais forte. Carolina sorriu. Um pássaro cantou ao longe. E Carolina saltou.

Nunca mais se soube Carolina. Uma equipe de busca a procurou por muitos e muitos dias, sem nenhum sucesso. Talvez seu corpo tenha sido tragado para o fundo do oceano, foi o que disseram. Mas, talvez, somente talvez, tenham esquecido de olhar para o céu de vez olhar para o mar.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Sábado no Parque

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Eu e minha família nunca tivemos a oportunidade - entenda-se, dinheiro - de viajarmos, todos ao mesmo tempo, para exterior ou mesmo para o Sul do país. Consequentemente, na minha infância e na de meus irmãos não existiu PlayCenter, Beto Carrero World ou, a utopia dos parques infantis, Disney World. Isso não significa, entretanto, que não nos divertíamos de verdade. Íamos à todos aqueles parques do interior do estado e era o máximo. Quando o Universal Park Center chegava em Fortaleza, então! Nossa! Era o paraíso dos parques! Tinha até, vejam só, montanha-russa!!!

Então, em um sábado qualquer, há cerca de quinze anos, meus pais decidiram nos levar a esse Universal Park, no Shopping Iguatemi. Nós três, crianças, estávamos ansiosíssimos para entrarmos e irmos logo em todos os brinquedos do parque, várias e várias vezes. Todas as crianças ali reagiam da mesma forma: corriam, gritavam e brincavam. Todos os pais, também, agiam da mesma forma: olhavam seus pequeninos brincarem e se cansarem, mas bem de longe.

Er... Não nossos pais.

Eles eram muito mais participativos e faziam questão de ir em TODOS os brinquedos conosco. A única regra era que eles revezavam entre si. Não queriam exagerar...

- Quero ir na montanha-russa! - gritei eu.

Papai e mamãe trocaram olhares e, veladamente, decidiram que ela iria primeiro. A mulher nunca havia andando de montanha-russa antes, mas, visualmente, não achou grande coisa. O tal brinquedo tinha umas três descidas e um único "looping", aquilo não poderia ser tão assustador. Já eu, era a ansiedade em pessoa. Minha mãe, sempre corajosa, tranquilizou-me a fila inteira. Mais alguns minutos e entramos, finalmente, no carrinho, que, logo, começou a subir... Ele subiu, subiu e, como não tinha muito o que subir, desceu. Pessoal. Sério. Eu juro para vocês. O grito que minha mãe deu ecoou pelo parque inteiro. Todos, absolutamente todos, no parque, olharam para a montanha-russa. Parecia que havia alguém morrendo lá. E ela não gritou só uma vez. Gritou aterrorizada também nas outras duas descidas e no único looping.

Quando descemos, meu pai ria tanto que estava vermelho. Minha mãe ficou um pouco chateada, claro, mas, enquanto cogitava brigar com o marido, o espírito da vingança tomou seu coração. Ela virou para meu irmão do meio, que na época tinha uns nove anos, e disse meigamente:

- Meu filho, porque você não vai no Ranger?
- Sério? Posso mesmo, mãe??? - os olhos do menino brilharam.
- Ranger?? - espantou-se meu pai - Esse não é o tal brinquedo que pára de cabeça pra baixo e que tu nunca deixou os meninos irem?
- Eles têm de aprender a serem mais corajosos, querido.
- Por favor, pai, vamos, vamos! - implorou meu irmão.
- Tá, vamos. E vocês? - perguntou para mim e para meu irmão caçula - Vão também?
- Eu não! - respondi.
- Nem. - falou o mais novo.
- Bem, filho. - declarou o meu pai corajoso para o único filho corajoso - Somos só nós.

Enquanto estavam na fila, gritos terríveis saíam do Ranger. Olharam para cima e viram a altura do raio do brinquedo, fazendo com que ambos congelassem por dois segundos. Meu irmão, deixando a coragem e o orgulho de lado, pediu para não ir mais. Paizinho, abraçando o orgulho e altamente empolgado, recusou-se a sair da fila e praticamente ameaçou o filho totalmente assustado para que ele não desistisse.

Do lado de fora, os três membros restantes da família observavam. Eu queria brincar em outros lugares, mas minha mãe disse:

- De jeito nenhum! Eu TENHO que ver isso!

Foi quando o tal do Ranger começou a funcionar. De longe, dava para ver a expressão assustada do meu irmão e a euforia de papai. Tudo estava indo bem, até que o brinquedo ameaçou ficar de cabeça para baixo. Gritos, nada mais. Então o brinquedo foi, foi, foi... e parou de ponta cabeça. Tudo foi em questão de segundos:

Um cartão caindo. Vários papéis planando. Um talão de cheque voando. E um grito vindo de cima:

- OLHA O CHEQUE!!!!!

Meu queirdo pai, juntando todas as suas forças, mesmo estando de cabeça para baixo, gritou à plenos pulmões para que resgatássemos seu talão de cheque voador. Ainda hoje me impressiono com a capacidade que ele tem que colocar TUDO no bolso da camisa. De qualquer forma, quando os dois desceram, meu irmão estava extremamente radiante e meu pai estava... verde. Saiu cambaleando e foi vomitar atrás da roda-gigante. Minha mãe, apesar de preocupada, não deixou de sentir o doce frescor da vingança.

Vinte minutos depois, paizinho ainda se recuperando, carregamos mamãe para um outro brinquedo, chamado Rotor. Nele, as pessoas ficavam em pé, encostadas em uma parede, enquanto ele girava e virava de lado. Graças à Física, ninguém caía, pois ficávamos grudados na paredinha. Quando o Rotor finalmente parou, assistimos as pessoas saírem. Depois vimos meu irmão mais novo saindo. E então... Onde estava nossa mãe? Ficamos preocupado por um momento, enquanto o técnico do brinquedo entrava lá para ver o que tinha acontecido. Ele a encontrou lá, em pé, atracada ao brinquedo e de olhos fechados, tão tonta que achava que ainda estava, de fato, rodando.

Incansável e sem noção, meu pai já estava pronto para outra. Eu e os meninos estávamos exaustos e com fome, só queríamos saber da barraquinha de cachorro quente. Mas papai? Não, papai, não. Ele queria mais. Ainda tinha um brinquedo que ele não havia andando. O nome dele era Samba. O troço consistia no seguinte: era uma roda, parecida com um pandeiro gigante com assentos pelo lado de dentro, que sacudia e balançava, enquanto as pessoas tentavam se segurar sentadas e sem nenhum cinto de segurança. Papito, o Desbravador de Parquinhos, foi sozinho no Samba, pois nenhum de nós queríamos ir.

Barulho de pessoas entrando no brinquedo. Assistimos, entediados, o chefe da nossa família sentando entre crianças e adolescentes. Mais um minuto. O pandeiro gigante começa a girar e a sacolejar. O Desbrador de Parquinhos até estava indo bem até a garota ao lado começar a escorregar. Como um bom cavalheiro, largou uma das mãos pra ajudá-la. Acredito que o maquinista, ou seja qual for o nome que se dê para os carinhas que cuidam dos brinquedos, avistou meu pai segurando-se em uma mão só e, sacanamente, fez a sacolejada do Samba ser mais violenta que o normal.

Bem... Vocês realmente querem que eu conte o resto? É bem óbvio. Ele caiu e ficou no meio do círculo, sendo jogado para cima e para todos os lados como um saco de batatas. E a preocupação de minha mãezinha, então... Foi simplesmente singela. Ela ria como se não restasse nada mais em sua vida a não ser gargalhar. Gargalhou, gargalhou, riu com todas as suas forças. Quando finalmente conseguiu parar de rir e começou a enxugar as lágrimas, paizinho desceu do brinquedo, pálido, gemendo e mancando. Então ela retomou as gargalhadas.

Isso foram só alguns acontecimentos daquele dia. Às vezes, me frustro um pouco por nunca ter tido a oportunidade de ter ido à Disney. Mas, então, lembro dos meus pais, que se esforçaram absurdamente para fazer com que um parque local, sem quase nenhum atrativo, ser tão divertido que até hoje lembramos desses dias com um sorriso.

Disney? Pra quê? Eu tive meus pais.



segunda-feira, 8 de outubro de 2007

História de Marinheiro

- Vôzinho, conta uma história!

O velho senhor, deitado em sua rede, olhou para os três netos pequenos, ávidos por mais uma história. A menina, mais velha, era sempre quem tinha a idéia de pedir que ele contasse histórias, chamando os irmãos mais novos para escutar também. O homem, que escutava apenas com o ouvido esquerdo – e, ainda assim, apenas 70% -, colocou a mão em concha na orelha, pois não havia entendido o que a neta disse.
- Quê que é, minha neta?

A menina, chegando perto da grande e enrugada orelha do avô, repetiu mais alto:
- Conta uma história, vôzinho!!!

O homem sorriu, abrindo a rede para que ela fosse invadida por três crianças levadas, que adoravam viajar na rede do avô como se ali fosse um navio e eles fossem os imediatos daquele capitão de cabelos brancos.
- Me digam então, meus netos... que história vocês querem ouvir?
- Qualquer uma de quando o senhor viajava! – gritou um dos meninos.
- Ah, mas têm muitas... Não sei qual contar.

As crianças olhavam, aguardando, pois sabiam que o avô só estava fazendo suspense.
- Pois bem. Vou contar de quando eu tinha quase 30 anos, quando estava navegando pelo Pacífico.

Os pequenos já sabiam que Pacífico era um oceano, de histórias anteriores.
- Bom, eu era sargento na época e estava com o Capitão recebendo orientações das nossas tarefas diárias. Todo dia, todo marujo do navio recebia uma função, que ia alternando de...
- O que é alternando? – perguntou o mais novo.
- ...ia mudando de pessoa para pessoa.
- Aaaaaah...
- Então, nesse dia, recebi a função de pescar. Só que todo mundo sabia que aquelas águas eram cheia de tubarões. Eles eram enormes, tão grandes que, durante a noite, a gente os ouvia baterem no casco do navio, para tirar as conchas que grudavam na sua pele. Ficavam batendo e batendo. Algumas noites nós não conseguíamos dormir, pois o barulho das pancadas era tão grande que chegávamos a pensar que eles iam furar o navio e nos puxar para o fundo do mar.

Os três pequenos prestavam muita atenção em cada palavra pronunciada pelo marinheiro aposentado, imaginando-se naquela situação aterradora.
- Mas – continuou o velho – o Capitão não queria saber de peixe pequeno. Queria que pescássemos um tubarão mesmo. Mas não tinha como usar vara de pescar. Eles a quebrariam em pedaços. Também não dava para usar o arpão – que é tipo uma lança – pois as águas eram muito turbulentas. Então lembrei de uma maneira de pescar um tanto desconhecida pelas pessoas, mas alguns marinheiros já tinham utilizado.

“Fui até a cozinha em busca de alguns jerimuns que tinham lá. Eles eram enormes, tão grandes que nem passavam pela porta. Um jerimum precisava ser cortado em seis pedaços para sair da cozinha, até hoje nunca vi jerimuns tão grandes. Falei pro cozinheiro ferver os seis pedaços, cozinhando bem, para ficar muito, muito quente. Quando já estava quase pegando fogo, levei para a proa. Cortei um rato e joguei no mar, para atrair os tubarões, que chegavam famintos. Então, nessa hora, eu joguei os jerimuns ferventes no mar. Os tubarões os engoliram imediatamente, morrendo queimados por dentro. Depois, com eles boiando, era só puxar com uma rede de pesca. Pronto. Tínhamos tubarões para semanas e semanas depois desse dia.”
- Ooooooh.... – espantaram-se as crianças.
- Vamos pra cama, meninos – dizia a mãe das crianças, que pularam da rede do avô e correram para o quarto.

O senhor continuava na rede, lembrando-se dos velhos tempos. A nora, cética, olhava para o sogro, imaginando que ele era bastante criativo, mas que fazia tempo que ela não escutava uma mentira tão grande.

Poucos anos depois, o velho marinheiro foi navegar no Céu. Passaram-se os anos e as crianças cresceram, mas as memórias das histórias continuavam e, apesar de acreditarem piamente que o avô contava, na realidade, histórias inventadas. Onde já se viu jerimuns tão grandes que era preciso cortar em seis pedaços para passar na porta? Onde já se viu, pescar tubarões com jerimuns ferventes? Mas ainda tinham boas lembranças do avô.

Um dia, a menina que crescera estava lendo um livro de Jô Soares, o Xangô de Baker Street. Nele, mencionava-se que, antigamente, os marinheiros pescavam tubarões utilizando abóboras ferventes! Abóboras enormes e ferventes que eles cortavam e jogavam no mar, fazendo os animais morrerem queimados por dentro! Ela correra para a sala, onde se encontrava sua mãe.

- Mãe, olha, olha isso aqui!
- O que?
- O vô tava falando a verdade, olha!
- Mas do que...?

A mulher leu a passagem do livro que descrevia a ação, espantando-se também. Lembraram-se, então, de todas as histórias fantasiosas contadas pelo saudoso senhor. Sentiram-se mal, quase dez anos depois, por terem duvidado da experiência do marujo.

Depois de um tempo, o mal-estar passou. Pois começaram a acreditar – ou, pelo menos, a dar o privilégio da dúvida -, em todas as outras incríveis histórias que o veterano de guerra gostava tanto de contar.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Sonhar

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Eu simplesmente adoro sonhar. Acho absolutamente incrível que nossa mente crie tantas coisas, acontecimentos, seres, sentimentos sem que tenhamos consciência disso. Sou totalmente apaixonada pelos mundos que existem em minha cabeça, que eu mesma desconheço, e espanto-me, todas as vezes, por minha mente ir tão longe e ultrapassar todos os limites que eu sequer sabia que existiam.

Acredito que essa minha fascinação pelo Sonhar surgiu quando tive o primeiro do qual me recordo bem. Eu era bastante nova na época, mas lembro-me que fiquei completamente emocionada com ele. Tanto que, a partir desse dia, esforçava-me sempre para sonhar as mais incríveis coisas.

Eu devia ter cerca de quatro anos de idade - ou menos – e adorava o desenho He-Man. No sonho, minha família havia sido raptada pelo Esqueleto, que deixou uma mensagem no céu para mim, dizendo que eu nunca mais os veria. Então, neste momento, somente He-Man poderia me ajudar. Sendo uma das poucas pessoas que sabiam que ele era o Príncipe Adam, corri ao castelo e pedi sua ajuda. Logo, ele transformou-se com sua espada de Greyskull e fui com ele para os domínios de Esqueleto. Chegando lá, houve uma batalha entre os arquiinimigos enquanto eu libertava minha família. He-Man venceu esqueleto e, depois, deu uma carona no Gato Guerreiro para nós quatro até nossa casa, no Pirambu, pois era caminho para o reino dele.

Pode rir do meu sonho, não tem problema. Mas imaginem esse sonho para uma criança de quatro anos. Foi a coisa mais maravilhosa que eu havia vivido até então. Fiquei imaginando que, quando dormíamos, viajávamos para outros mundos. Eu cresci, mas ainda acredito que vamos para outros mundos, ainda que não literalmente. Onde mais poderíamos voar? Ou saltar de um prédio para outro, beber toda a água do oceano, lutar contra E.T.’s, concluir o inconcluso, ou beijar aquele seu ídolo inatingível?

Muitos já me disseram que têm o sono vazio e escuro, sendo apenas um espaço em que seu corpo descansa. Mas acredito que, se você abrir sua mente, deixa-la viajar, ela irá lhe proporcionar sensações magníficas. Até hoje, quando um dos mundos para o qual eu viajo me impressiona, eu o registro escrevendo. Porque, desta forma, eu nunca o esquecerei. E, mesmo que não consiga mais visitar esse mundo novamente, eu apenas o leio em meus escritos e logo sou transportada para lá.

Se acredito que eles sempre têm significado? Bem, hei de convir que, às vezes, eles parecem apenas bobagens sem nexo. Mas, em muitas outras, encontramos soluções e conselhos para nossa vida. Basta procurar. Os sonhos são, nada mais, nada menos, uma maneira que possuímos de alcançar e conhecer o que existe em nosso inconsciente; uma chance de saber o que já sabemos, embora não façamos a menor idéia.

Faça isso. Aprecie seus sonhos.

Quem sabe, um dia, não nos encontramos em um mundo qualquer?