Um dos relacionamentos amorosos mais sinceros que eu tive na minha vida foi com um garoto chamado Tiago. Ele era carinhoso, gentil, bonito, inteligente, engraçado e ainda sabia dançar. A primeira vez em que prestei atenção nele foi quando um colega meu, da cadeira ao lado, comeu minha massinha de modelar vermelha, impossibilitando-me de continuar esculpindo as pétalas da flor que estava construindo.
Bem, sim. Eu tinha quatro anos de idade.
Lembro que meninos, para mim, não passavam de criaturinhas perturbadoras que gostavam de puxar meu cabelo - a exemplo de meus irmãos mais novos. Mas, quando o Tiago, sorrindo, estendeu sua tirinha de massa de modelar vermelha, percebi que poderia haver algo sobre os homens que eu ainda não sabia.
Como eu era muito tímida, não tinha amigos e sentia-se deslocada no Maternal. Mas, desde o dia em que percebi Tiago, mal podia esperar para chegar à escola. Tornamo-nos os melhores amigos. Brincávamos juntos no recreio e sempre sentávamos ao lado na sala de aula. Dividíamos a lancheira, divagávamos sobre como os "fazedores de televisão" conseguiam enfiar pessoinhas tão pequenas dentro da TV e chegávamos até a especular sobre o preço de venda de nuvens no mercado, caso conseguíssemos pegar uma, claro. Por fim, decidimos que estávamos namorando, mas sem beijar na boca porque isso era coisa de adulto nojento.
No dia das Crianças, a professora resolveu fazer uma pecinha sobre a música "A Pulga e o Percevejo". Sem pestanejar, ela determinou que eu faria a Pulga e Tiago faria meu marido Percevejo. Lembro que fizeram para mim uma linda roupinha de papel crepom de bolinhas vermelhas, pintaram meu rosto e disseram-me como dançar. Mas, como eu ainda era muito tímida, bem na hora de entrar no palco, desisti. Foi quando Tiago aproximou-se de mim, pegou a minha mão nas suas e disse: "Eu não sei como é uma pulga, mas acho que tu não parece uma pulga, porque tu é grande e bonita. Também não acho que eu pareço um perc... 'percebeju'." E ele me puxou pro palco. Aquela foi a primeira vez em que realmente percebi a existência de sentimentos maiores. A primeira vez na qual disse para mim mesma: "É, eu gosto desse menino". E lembro, como se fosse hoje, que o meu coração foi à mil por hora. E não era porque estava entrando no palco.
No ano seguinte, fomos separados pelos meus pais, que se mudaram para Fortaleza. Mais outro ano depois de nossa separação, minhas lembranças sobre a sua doçura tornavam-se, apenas, lembranças distantes. Cresci, amadureci, conheci outros garotos e constatei, outras vezes: "É, eu gosto desse menino". Nunca mais vi Tiago. Também não sabia como ele estava.
Até Fevereiro deste ano.
Estava eu trabalhando, quando um rapaz veio até mim para pedir uma informação sobre um produto. Como sou muito boa fisionomista, tinha certeza absoluta que já havia visto aquele homem antes. Ele percebeu minha expressão e perguntou: "A gente se conhece de algum lugar?". Respondi-lhe que ele não me era estranho, mas não conseguia me lembrar. Foi quando ele avistou meu crachá.
"Michelle... Eu já estudei com uma menina chamada Michelle quando era pequeno."
"Como é seu nome?" - perguntei.
"Tiago."
Nesse momento, eu lembrei. Voltei no tempo e lembrei do Tiago, o meu Tiago, do Maternal. Acredito que a surpresa ficou tão óbvia em meu rosto, que ele sorriu e disse:
"Vai me dizer que você foi minha Pulga?"
Parece até mentira que eu lembre tanto de algo que aconteceu há tanto tempo. Principalmente, um reencontro como esse. Mas foi verdade, a mais pura verdade. Sei que falamos apenas cinco minutos e nos despedimos novamente. Não sei que homem ele se tornou e, tampouco, ele sabe que mulher eu me tornei. Para falar a verdade, eu não quis estender demais aquela conversa. Porque, apesar de ele ainda possuir mesmo sorriso, eu não sabia o que poderia encontrar ali. E, definitivamente, prezo demais a lembrança de meu primeiro amor para continuar conversando com aquele Tiago.
Pois ele não era mais o meu Tiago.
Bem, sim. Eu tinha quatro anos de idade.
Lembro que meninos, para mim, não passavam de criaturinhas perturbadoras que gostavam de puxar meu cabelo - a exemplo de meus irmãos mais novos. Mas, quando o Tiago, sorrindo, estendeu sua tirinha de massa de modelar vermelha, percebi que poderia haver algo sobre os homens que eu ainda não sabia.
Como eu era muito tímida, não tinha amigos e sentia-se deslocada no Maternal. Mas, desde o dia em que percebi Tiago, mal podia esperar para chegar à escola. Tornamo-nos os melhores amigos. Brincávamos juntos no recreio e sempre sentávamos ao lado na sala de aula. Dividíamos a lancheira, divagávamos sobre como os "fazedores de televisão" conseguiam enfiar pessoinhas tão pequenas dentro da TV e chegávamos até a especular sobre o preço de venda de nuvens no mercado, caso conseguíssemos pegar uma, claro. Por fim, decidimos que estávamos namorando, mas sem beijar na boca porque isso era coisa de adulto nojento.
No dia das Crianças, a professora resolveu fazer uma pecinha sobre a música "A Pulga e o Percevejo". Sem pestanejar, ela determinou que eu faria a Pulga e Tiago faria meu marido Percevejo. Lembro que fizeram para mim uma linda roupinha de papel crepom de bolinhas vermelhas, pintaram meu rosto e disseram-me como dançar. Mas, como eu ainda era muito tímida, bem na hora de entrar no palco, desisti. Foi quando Tiago aproximou-se de mim, pegou a minha mão nas suas e disse: "Eu não sei como é uma pulga, mas acho que tu não parece uma pulga, porque tu é grande e bonita. Também não acho que eu pareço um perc... 'percebeju'." E ele me puxou pro palco. Aquela foi a primeira vez em que realmente percebi a existência de sentimentos maiores. A primeira vez na qual disse para mim mesma: "É, eu gosto desse menino". E lembro, como se fosse hoje, que o meu coração foi à mil por hora. E não era porque estava entrando no palco.
No ano seguinte, fomos separados pelos meus pais, que se mudaram para Fortaleza. Mais outro ano depois de nossa separação, minhas lembranças sobre a sua doçura tornavam-se, apenas, lembranças distantes. Cresci, amadureci, conheci outros garotos e constatei, outras vezes: "É, eu gosto desse menino". Nunca mais vi Tiago. Também não sabia como ele estava.
Até Fevereiro deste ano.
Estava eu trabalhando, quando um rapaz veio até mim para pedir uma informação sobre um produto. Como sou muito boa fisionomista, tinha certeza absoluta que já havia visto aquele homem antes. Ele percebeu minha expressão e perguntou: "A gente se conhece de algum lugar?". Respondi-lhe que ele não me era estranho, mas não conseguia me lembrar. Foi quando ele avistou meu crachá.
"Michelle... Eu já estudei com uma menina chamada Michelle quando era pequeno."
"Como é seu nome?" - perguntei.
"Tiago."
Nesse momento, eu lembrei. Voltei no tempo e lembrei do Tiago, o meu Tiago, do Maternal. Acredito que a surpresa ficou tão óbvia em meu rosto, que ele sorriu e disse:
"Vai me dizer que você foi minha Pulga?"
Parece até mentira que eu lembre tanto de algo que aconteceu há tanto tempo. Principalmente, um reencontro como esse. Mas foi verdade, a mais pura verdade. Sei que falamos apenas cinco minutos e nos despedimos novamente. Não sei que homem ele se tornou e, tampouco, ele sabe que mulher eu me tornei. Para falar a verdade, eu não quis estender demais aquela conversa. Porque, apesar de ele ainda possuir mesmo sorriso, eu não sabia o que poderia encontrar ali. E, definitivamente, prezo demais a lembrança de meu primeiro amor para continuar conversando com aquele Tiago.
Pois ele não era mais o meu Tiago.
