quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Sábado no Parque

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Eu e minha família nunca tivemos a oportunidade - entenda-se, dinheiro - de viajarmos, todos ao mesmo tempo, para exterior ou mesmo para o Sul do país. Consequentemente, na minha infância e na de meus irmãos não existiu PlayCenter, Beto Carrero World ou, a utopia dos parques infantis, Disney World. Isso não significa, entretanto, que não nos divertíamos de verdade. Íamos à todos aqueles parques do interior do estado e era o máximo. Quando o Universal Park Center chegava em Fortaleza, então! Nossa! Era o paraíso dos parques! Tinha até, vejam só, montanha-russa!!!

Então, em um sábado qualquer, há cerca de quinze anos, meus pais decidiram nos levar a esse Universal Park, no Shopping Iguatemi. Nós três, crianças, estávamos ansiosíssimos para entrarmos e irmos logo em todos os brinquedos do parque, várias e várias vezes. Todas as crianças ali reagiam da mesma forma: corriam, gritavam e brincavam. Todos os pais, também, agiam da mesma forma: olhavam seus pequeninos brincarem e se cansarem, mas bem de longe.

Er... Não nossos pais.

Eles eram muito mais participativos e faziam questão de ir em TODOS os brinquedos conosco. A única regra era que eles revezavam entre si. Não queriam exagerar...

- Quero ir na montanha-russa! - gritei eu.

Papai e mamãe trocaram olhares e, veladamente, decidiram que ela iria primeiro. A mulher nunca havia andando de montanha-russa antes, mas, visualmente, não achou grande coisa. O tal brinquedo tinha umas três descidas e um único "looping", aquilo não poderia ser tão assustador. Já eu, era a ansiedade em pessoa. Minha mãe, sempre corajosa, tranquilizou-me a fila inteira. Mais alguns minutos e entramos, finalmente, no carrinho, que, logo, começou a subir... Ele subiu, subiu e, como não tinha muito o que subir, desceu. Pessoal. Sério. Eu juro para vocês. O grito que minha mãe deu ecoou pelo parque inteiro. Todos, absolutamente todos, no parque, olharam para a montanha-russa. Parecia que havia alguém morrendo lá. E ela não gritou só uma vez. Gritou aterrorizada também nas outras duas descidas e no único looping.

Quando descemos, meu pai ria tanto que estava vermelho. Minha mãe ficou um pouco chateada, claro, mas, enquanto cogitava brigar com o marido, o espírito da vingança tomou seu coração. Ela virou para meu irmão do meio, que na época tinha uns nove anos, e disse meigamente:

- Meu filho, porque você não vai no Ranger?
- Sério? Posso mesmo, mãe??? - os olhos do menino brilharam.
- Ranger?? - espantou-se meu pai - Esse não é o tal brinquedo que pára de cabeça pra baixo e que tu nunca deixou os meninos irem?
- Eles têm de aprender a serem mais corajosos, querido.
- Por favor, pai, vamos, vamos! - implorou meu irmão.
- Tá, vamos. E vocês? - perguntou para mim e para meu irmão caçula - Vão também?
- Eu não! - respondi.
- Nem. - falou o mais novo.
- Bem, filho. - declarou o meu pai corajoso para o único filho corajoso - Somos só nós.

Enquanto estavam na fila, gritos terríveis saíam do Ranger. Olharam para cima e viram a altura do raio do brinquedo, fazendo com que ambos congelassem por dois segundos. Meu irmão, deixando a coragem e o orgulho de lado, pediu para não ir mais. Paizinho, abraçando o orgulho e altamente empolgado, recusou-se a sair da fila e praticamente ameaçou o filho totalmente assustado para que ele não desistisse.

Do lado de fora, os três membros restantes da família observavam. Eu queria brincar em outros lugares, mas minha mãe disse:

- De jeito nenhum! Eu TENHO que ver isso!

Foi quando o tal do Ranger começou a funcionar. De longe, dava para ver a expressão assustada do meu irmão e a euforia de papai. Tudo estava indo bem, até que o brinquedo ameaçou ficar de cabeça para baixo. Gritos, nada mais. Então o brinquedo foi, foi, foi... e parou de ponta cabeça. Tudo foi em questão de segundos:

Um cartão caindo. Vários papéis planando. Um talão de cheque voando. E um grito vindo de cima:

- OLHA O CHEQUE!!!!!

Meu queirdo pai, juntando todas as suas forças, mesmo estando de cabeça para baixo, gritou à plenos pulmões para que resgatássemos seu talão de cheque voador. Ainda hoje me impressiono com a capacidade que ele tem que colocar TUDO no bolso da camisa. De qualquer forma, quando os dois desceram, meu irmão estava extremamente radiante e meu pai estava... verde. Saiu cambaleando e foi vomitar atrás da roda-gigante. Minha mãe, apesar de preocupada, não deixou de sentir o doce frescor da vingança.

Vinte minutos depois, paizinho ainda se recuperando, carregamos mamãe para um outro brinquedo, chamado Rotor. Nele, as pessoas ficavam em pé, encostadas em uma parede, enquanto ele girava e virava de lado. Graças à Física, ninguém caía, pois ficávamos grudados na paredinha. Quando o Rotor finalmente parou, assistimos as pessoas saírem. Depois vimos meu irmão mais novo saindo. E então... Onde estava nossa mãe? Ficamos preocupado por um momento, enquanto o técnico do brinquedo entrava lá para ver o que tinha acontecido. Ele a encontrou lá, em pé, atracada ao brinquedo e de olhos fechados, tão tonta que achava que ainda estava, de fato, rodando.

Incansável e sem noção, meu pai já estava pronto para outra. Eu e os meninos estávamos exaustos e com fome, só queríamos saber da barraquinha de cachorro quente. Mas papai? Não, papai, não. Ele queria mais. Ainda tinha um brinquedo que ele não havia andando. O nome dele era Samba. O troço consistia no seguinte: era uma roda, parecida com um pandeiro gigante com assentos pelo lado de dentro, que sacudia e balançava, enquanto as pessoas tentavam se segurar sentadas e sem nenhum cinto de segurança. Papito, o Desbravador de Parquinhos, foi sozinho no Samba, pois nenhum de nós queríamos ir.

Barulho de pessoas entrando no brinquedo. Assistimos, entediados, o chefe da nossa família sentando entre crianças e adolescentes. Mais um minuto. O pandeiro gigante começa a girar e a sacolejar. O Desbrador de Parquinhos até estava indo bem até a garota ao lado começar a escorregar. Como um bom cavalheiro, largou uma das mãos pra ajudá-la. Acredito que o maquinista, ou seja qual for o nome que se dê para os carinhas que cuidam dos brinquedos, avistou meu pai segurando-se em uma mão só e, sacanamente, fez a sacolejada do Samba ser mais violenta que o normal.

Bem... Vocês realmente querem que eu conte o resto? É bem óbvio. Ele caiu e ficou no meio do círculo, sendo jogado para cima e para todos os lados como um saco de batatas. E a preocupação de minha mãezinha, então... Foi simplesmente singela. Ela ria como se não restasse nada mais em sua vida a não ser gargalhar. Gargalhou, gargalhou, riu com todas as suas forças. Quando finalmente conseguiu parar de rir e começou a enxugar as lágrimas, paizinho desceu do brinquedo, pálido, gemendo e mancando. Então ela retomou as gargalhadas.

Isso foram só alguns acontecimentos daquele dia. Às vezes, me frustro um pouco por nunca ter tido a oportunidade de ter ido à Disney. Mas, então, lembro dos meus pais, que se esforçaram absurdamente para fazer com que um parque local, sem quase nenhum atrativo, ser tão divertido que até hoje lembramos desses dias com um sorriso.

Disney? Pra quê? Eu tive meus pais.



2 comentários:

K-09 disse...

Toda vez que eu leio uma historia da tua familia eu visualizo a cara do teu pai :P

guilardo disse...

huahuahuahuahuahuahuahuahuahuahuahuahuahuahuahuahuahuahuahuauhahua!!!!