terça-feira, 18 de setembro de 2007

No Grande Circular, Tudo Acontece: Flor de Liz

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Os relógios já marcavam mais de 10h da noite, mas seus donos estavam cansados demais para consultá-los. O ônibus, com alguns assentos vagos, seguia solitário seu caminho de domingo a noite. Dos passageiros, havia apenas dois ou três festeiros entregues ao sono dos bêbados. No entanto, a grande maioria eram pessoas que trabalharam todo o feriado.
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O silêncio reinava entre os presentes, que estavam rendidos aos braços da exaustão e da melancolia de quem labutou enquanto seus amigos divertiam-se e descansavam. Os únicos sons que ainda se conseguia ouvir na condução eram o ranger dos parafusos velhos e as músicas tristes que saiam da rádio sintonizada pelo motorista. Eu, localizada nessa classe de trabalhores, lutava para não dormir, mas todo o ambiente não colaborava para me manter de olhos abertos. O trocador também dormia.
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Nesse momento, onde o que poderia acontecer de mais interessante seria uma barata morrer de tédio, Caetano Veloso surgiu na rádio, interpretando uma canção que é interseção no gosto musical universal: Flor de Liz.
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Comecei a cantarolar baixinho, acompanhando Caetano involuntariamente, e meu sono diminuiu um pouco. Meus ouvidos captaram uma outra voz, também cantarolando baixinho juntamente com o baiano. Levantei meus olhos e vi que a dona da voz era uma senhora humilde, vestida como zeladora. Nós duas, ao mesmo tempo, percebemos uma terceira pessoa também a cantar. Nossos olhares se encontraram e esboçamos um sorriso. O homem ao meu lado, saindo de seu devaneio, tornou-se a quarta pessoa do coro. Logo, antes mesmo do refrão, a música entoada por alguns passageiros se tornara bastante audível.
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Os bêbados levantaram as cabeças.
Os olhos do motorista sorriram pelo retrovisor.
O trocador acordou.
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Então...
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"[...]
E foi assim que eu vi
Nosso amor na poeira poeira
Morto na beleza fria de Maria
E o meu jardim da vida
Ressecou, morreu
Do pé que brotou Maria
Nem margarida nasceu..."
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...todo o ônibus, do motorista, do trocador a cada passageiro, cantou o refrão com espantosa alegria e vontade. Todos, ex-entediados, ex-cansados, ex-zangados, ex-tristes, todos estávamos cantando. Sorríamos abertamente, batucando nas cadeiras e nas bolsas, à plenos pulmões, despertos por um sentimento inesperado que nos invadiu através de uma música: felicidade. De repente, todos éramos iguais, unidos pela alegria e canção. Senti-me incrivelmente feliz nessa noite e dormi com uma paz como há muitos dias eu não tinha.
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Desta forma, passei a acreditar que mesmo que estejamos cansados demais para ver a vida passando pelos nossos olhos, algo sempre nos lembrará o porquê de estarmos vivos, quando menos se espera. Seja em casa, no trabalho, nos sonhos, na rua, em qualquer lugar. Sempre surgirá algo, em algum lugar, que nos fará lembrar.
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Nunca imaginei que, para mim, seria a Flor de Liz no Grande Circular 1.

3 comentários:

K-09 disse...

AhauHAUhauHAU
qUISERA TODO ONIBUIS SER ASSIM!

Lucas disse...

essa história é verídica?

josy disse...

O que mais admiro nos cronistas é a incrível capacidade que têm de transformar fatos corriqueiros em textos inesquecíveis.

Parabéns, Chell! ^^