Quatro crianças brincavam no playground em uma pracinha dentro do condomínio de prédios onde moravam. Como todo grupo de crianças de 6 anos de idade, estavam tendo a discussão mais velha dos jardins de infância.
Pedro, ajeitando os óculos no nariz proeminente, começou:
- Papai é o melhor pai do mundo! Ele é médico, dá remédio para todas as pessoas doentes da cidade e todo mundo fica bom!
Carlos, já revelando o adulto que seria, retrucou com seu sarcasmo recém-descoberto:
- Ah, é? Então porque a minha tia Justina morreu de câncer?
- O que é câncer? – perguntou Marina.
- Essa é fácil – respondeu Pedro, o sábio filho de médico – Só pega câncer quem fuma. Mamãe disse que cigarro sempre mata.
- E sua tia fumava, Carlinhos? – indagou novamente Marina, curiosa.
- Fumava... AH, então é por isso que a Juba sempre gritava pra minha tia que ainda ia ver ela morta.
- Quem é Juba?
- A filha da minha tia.
- Sua prima, Carlinhos.
- Não, burra, ela não é minha prima, ela é filha da minha tia.
Marina balançou a cabeça, desistindo.
- Mas o melhor mesmo é meu pai – retomou Carlos -. Ele é Engen... ‘Engeneiro’, ele faz prédios e manda em um monte de ‘predreiros’.
Sempre a mais inteligente, a menina rebate:
- Não precisa ser Engenheiro pra mandar em pedreiro. Mamãe mandava num pedreiro lá de casa e o trabalho dela é só assistir TV e brincar com o Seu Osvaldo.
- Sua mãe é adulta? – pergunta Pedro.
- É.
- Não pode ser. Adultos não brincam. Eles só trabalham.
- Quem é Seu Osvaldo?
- É um vizinho. Ele vai lá em casa de tarde brincar com a mamãe porque ela fica muito só quando papai vai pra loja. Foi o que ela me disse.
- Deixa de ser burra, Marina. – disparou Carlos – Eles não brincam, eles tão mentindo pra tu.
- Não tão não!
- Tão sim! Mamãe dizia que ia pra casa da tia Justina pra ela não ficar só e a tia Justina morreu duas semanas depois.
- O Seu Osvaldo fuma, Marina? – perguntou Pedro, já querendo fazer o diagnóstico.
- Fuma! – constata a menina com uma expressão atemorizada.
- Ta explicado.
- Não acredito que o Seu Osvaldo vai morrer... Mesmo ele sendo tão velho, já tem 30 anos...
- Cigarro mata. – enfatizou o mini-doutor.
- Mata.
- Mata mesmo.
Enquanto isso, a quarta criança, Walyson, ouvia tudo em silêncio. Marina, sempre perguntando, dirigiu a palavra ao menino.
- E o teu pai, Walyson, o que ele faz?
- Eu tava esperando vocês terminarem pra eu falar do meu pai.
A pequena responde depressa:
- Meu pai é gerente de uma loja. Ele que faz a loja ganhar dinheiro. Agora fala o que o seu pai faz.
- Bom, - falou Walyson, indo pro balançador - meu pai é gigolô.
O silêncio tomara conta do parquinho. Marina mexia a barra do seu vestido, Carlos chutava algumas pedrinhas e Pedro tentava colocar seu óculos no lugar usando apenas o nariz. Walyson balançava-se. Ninguém ousou falar nada até que, um minuto depois, Marina não conseguiu mais disfarçar a ignorância e rompeu o silêncio:
- O que um gigolô faz?
Pedro e Carlos pararam o que estava fazendo e olharam, curiosos, para Walyson.
- Um gigolô recebe dinheiro de mulheres frustradas e faz elas ficarem mais felizes.
- Não entendi. – confessou Pedro e Marina assentiu.
- Vocês são muito burros! – exclamou Carlos – É claro que uma mulher furada é triste! Tudo que ela bebe deve escorrer pra fora!
- Carlinhos, - corrigiu Walyson – é frustrada e não furada.
- Aaaaah... Agora sim, entendi. – falou Carlos.
- Você sabe o que é frustrada, Carlinhos? – perguntou o pequeno casal que não tinha vergonha de admitir que não sabiam tudo sobre o mundo.
- Claro que sei! Frustrada? É um tipo de... assim... É quando... Ah, deixa o Walyson explicar, que a história é dele.
- Frustrada é uma mulher que é mal-amada. Foi o que papai disse.
- Como se pode ser mal amada? Amor não é bom? – questionou a menina.
- Não sei. Sei que meu pai ganha muitos presentes das mulheres que ele atende e a gente se mudou pra cá depois que ele conseguiu esse trabalho. Uma vez, quando minha irmã me levou pra casa, uma mulher ia saindo. Ela disse que meu pai era... como foi mesmo? Uma “máquina de prazer”. Acho que minha irmã não gostou de descobrir que meu pai é um robô, porque ela saiu chorando. Mas eu achei legal, vai ver eu viro um robô quando crescer!
- Seu pai é um robô??? – perguntou Carlos.
- Robôs assim não existem! – falou Pedro.
- Existem sim. Meu pai é um robô de prazer que é um gigolô. Deve ser por isso que as pessoas sempre falam que é um prazer conhecer ele.
- Mas falam isso pro meu pai também!
- Pro meu também!
- Pro meu também!
- Será que o pai de vocês também é robô?
As outras três crianças levantaram-se ao mesmo tempo, correndo para casa a fim de perguntarem para seus pais se eles eram robôs. Walyson, contente, foi andando do parquinho para casa, pois já estava quase na hora de seu pai, seu herói, voltar da casa de D. Luciana, uma das clientes do Gigolô Robô de Prazer.
Que orgulho ele tinha de seu pai!
Pedro, ajeitando os óculos no nariz proeminente, começou:
- Papai é o melhor pai do mundo! Ele é médico, dá remédio para todas as pessoas doentes da cidade e todo mundo fica bom!
Carlos, já revelando o adulto que seria, retrucou com seu sarcasmo recém-descoberto:
- Ah, é? Então porque a minha tia Justina morreu de câncer?
- O que é câncer? – perguntou Marina.
- Essa é fácil – respondeu Pedro, o sábio filho de médico – Só pega câncer quem fuma. Mamãe disse que cigarro sempre mata.
- E sua tia fumava, Carlinhos? – indagou novamente Marina, curiosa.
- Fumava... AH, então é por isso que a Juba sempre gritava pra minha tia que ainda ia ver ela morta.
- Quem é Juba?
- A filha da minha tia.
- Sua prima, Carlinhos.
- Não, burra, ela não é minha prima, ela é filha da minha tia.
Marina balançou a cabeça, desistindo.
- Mas o melhor mesmo é meu pai – retomou Carlos -. Ele é Engen... ‘Engeneiro’, ele faz prédios e manda em um monte de ‘predreiros’.
Sempre a mais inteligente, a menina rebate:
- Não precisa ser Engenheiro pra mandar em pedreiro. Mamãe mandava num pedreiro lá de casa e o trabalho dela é só assistir TV e brincar com o Seu Osvaldo.
- Sua mãe é adulta? – pergunta Pedro.
- É.
- Não pode ser. Adultos não brincam. Eles só trabalham.
- Quem é Seu Osvaldo?
- É um vizinho. Ele vai lá em casa de tarde brincar com a mamãe porque ela fica muito só quando papai vai pra loja. Foi o que ela me disse.
- Deixa de ser burra, Marina. – disparou Carlos – Eles não brincam, eles tão mentindo pra tu.
- Não tão não!
- Tão sim! Mamãe dizia que ia pra casa da tia Justina pra ela não ficar só e a tia Justina morreu duas semanas depois.
- O Seu Osvaldo fuma, Marina? – perguntou Pedro, já querendo fazer o diagnóstico.
- Fuma! – constata a menina com uma expressão atemorizada.
- Ta explicado.
- Não acredito que o Seu Osvaldo vai morrer... Mesmo ele sendo tão velho, já tem 30 anos...
- Cigarro mata. – enfatizou o mini-doutor.
- Mata.
- Mata mesmo.
Enquanto isso, a quarta criança, Walyson, ouvia tudo em silêncio. Marina, sempre perguntando, dirigiu a palavra ao menino.
- E o teu pai, Walyson, o que ele faz?
- Eu tava esperando vocês terminarem pra eu falar do meu pai.
A pequena responde depressa:
- Meu pai é gerente de uma loja. Ele que faz a loja ganhar dinheiro. Agora fala o que o seu pai faz.
- Bom, - falou Walyson, indo pro balançador - meu pai é gigolô.
O silêncio tomara conta do parquinho. Marina mexia a barra do seu vestido, Carlos chutava algumas pedrinhas e Pedro tentava colocar seu óculos no lugar usando apenas o nariz. Walyson balançava-se. Ninguém ousou falar nada até que, um minuto depois, Marina não conseguiu mais disfarçar a ignorância e rompeu o silêncio:
- O que um gigolô faz?
Pedro e Carlos pararam o que estava fazendo e olharam, curiosos, para Walyson.
- Um gigolô recebe dinheiro de mulheres frustradas e faz elas ficarem mais felizes.
- Não entendi. – confessou Pedro e Marina assentiu.
- Vocês são muito burros! – exclamou Carlos – É claro que uma mulher furada é triste! Tudo que ela bebe deve escorrer pra fora!
- Carlinhos, - corrigiu Walyson – é frustrada e não furada.
- Aaaaah... Agora sim, entendi. – falou Carlos.
- Você sabe o que é frustrada, Carlinhos? – perguntou o pequeno casal que não tinha vergonha de admitir que não sabiam tudo sobre o mundo.
- Claro que sei! Frustrada? É um tipo de... assim... É quando... Ah, deixa o Walyson explicar, que a história é dele.
- Frustrada é uma mulher que é mal-amada. Foi o que papai disse.
- Como se pode ser mal amada? Amor não é bom? – questionou a menina.
- Não sei. Sei que meu pai ganha muitos presentes das mulheres que ele atende e a gente se mudou pra cá depois que ele conseguiu esse trabalho. Uma vez, quando minha irmã me levou pra casa, uma mulher ia saindo. Ela disse que meu pai era... como foi mesmo? Uma “máquina de prazer”. Acho que minha irmã não gostou de descobrir que meu pai é um robô, porque ela saiu chorando. Mas eu achei legal, vai ver eu viro um robô quando crescer!
- Seu pai é um robô??? – perguntou Carlos.
- Robôs assim não existem! – falou Pedro.
- Existem sim. Meu pai é um robô de prazer que é um gigolô. Deve ser por isso que as pessoas sempre falam que é um prazer conhecer ele.
- Mas falam isso pro meu pai também!
- Pro meu também!
- Pro meu também!
- Será que o pai de vocês também é robô?
As outras três crianças levantaram-se ao mesmo tempo, correndo para casa a fim de perguntarem para seus pais se eles eram robôs. Walyson, contente, foi andando do parquinho para casa, pois já estava quase na hora de seu pai, seu herói, voltar da casa de D. Luciana, uma das clientes do Gigolô Robô de Prazer.
Que orgulho ele tinha de seu pai!

1 comentários:
Huahuahauhauhuaha!! :DD
Tô me acabando de rir aqui, Chell!
Muito boa essa crônica!
Mas... será que meu pai também é um robô? :P
Bjins! ^^
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