Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Uma Vida de Parábolas

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Pergunto-me se os grandes sábios aprenderam mais com essa cruel professora que é a vida ou simplesmente eram exímios autodidatas. Particularmente, gosto de acreditar que todo ser deveras sapiente tiveram algumas boas parábolas nas esquinas de sua vida, mais um conto aqui e uma crônica acolá. A diferença deles para nós, meros mortais, é que eles absorveram a moral da história.
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Fico pensando por quantas parábolas já passei e nem percebi. A moral de cada uma delas soprada no ouvido de minha consciência, pronta para ser aprendida. Acontece que minha mente estava ocupada demais remoendo as próprias penas, para variar.
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Essa semana uma pessoa que eu gostava muito faleceu. Ela era uma mulher muito alegre, feliz e de bem com a vida, realmente um exemplo de ser humano. Uma pessoa que viveu intensamente, dedicou-se de corpo e alma a quem ela amava, desenvolveu uma carreira profissional que adorava, era gentil e prestativa. Costumava falar que não lembrava de arrependimentos na vida, pois aquilo tudo que ela passou dela fazia parte. Um dia, quando soube que eu escrevia, comentou que a vida dela daria algumas dezenas de bons contos. Nunca duvidei.
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Eu quero isso para mim. Uma vida que possa ser escrita, uma repleta de moral de histórias. Quero viver sem arrependimento e ter certeza de cada passo que eu dou, até mesmo os mais impensados.
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Quero ser uma criação de mim mesma.
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Quero, sim, uma vida de parábolas.

Quarta-feira, 29 de Abril de 2009

Maldito Telefone Sem Fio


É incrível o quanto uma informação pode ser deturpada. Minha família, várias vezes, passou por situações desagradáveis devido a histórias que receberam uma boa dose de exagero.
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Fato Real #1: Quando eu ainda nem sonhava em nascer, minha mãe sofreu um acidente nas Lojas Americanas. Enquanto ela trabalhava na seção de perfumes, uma cliente escorregou no piso molhado e sustentou-se nela, que desequilibrou-se sobre as prateleiras. Um dos vidros de perfume quebrou e perfurou a batata de sua perna, abrindo um enorme buraco na mesma e sangrando bastante. Obviamente, mamãe foi levada para o hospital, onde fora submetida a uma operação de enxerto, pois o ferimento havia sido bastante profundo, muito embora não houvesse risco de vida.
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Como a notícia foi dada pela minha tia ao namorado de minha mãe, vulgo meu pai:
"Álvaro de Deus, corre, que é sério!!! A Fatinha tava andando lá na Senador Pompeu quando um caminhão CHEIO de vidro VIROU em cima dela!!! Ela tá no hospital agora em estado grave, fazendo um transplante de coração! Ela perdeu muito sangue, indo lá pra doar, mas o sangue dela é A negativo e o meu é B, será que serve???"
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Fato Real #2:
Meu irmão mais novo, aos 10 anos, pisou em cima do cadarço do próprio tênis enquanto estava saindo de um brinquedo em um parque de diversões, caindo na escada e ferindo a boca. Sangrou consideravelmente, já que a boca é bastante vascularizada, mas, no final das contas, foi um corte pequeno. O serviço médico do próprio parque tratou do ferimento.
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Como a notícia foi dada a minha mãe:
"Alô, Fatinha? Mulher, a menina que trabalha aqui disse que ligaram do parque onde os meninos estavam... Fica calma, tá? Ligaram pra dizer que o Vicente ficou PENDURADO pelo cadarço do sapato em um daqueles brinquedos... não lembro o nome... acho que era aquele Ranger, que fica de cabeça pra baixo e ele CAIU!!! Ai, meu Deus, mulher, vamos correr lá, diz que foi tanto sangue, minha nossa senhora, crê em Deus Pai! Será que levaram ele pro IJF???"
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Fato Real #3
Meu irmão do meio, aos 16 anos, teve uma úlcera hemorrágica e vomitou sangue em casa. Ele estava desfalecendo e foi bastante grave, desesperando todos da casa, mobilizados em carregá-lo para o carro e levá-lo ao hospital. Como ele estava muito mal, todo mundo, inclusive eu, estava chorando, tamanha a gravidade da situação. A correria chamou atenção das pessoas na rua, que nos viram carregando meu irmão para o carro. Após meus pais saírem apressados com ele para o hospital, fechei o portão de casa e fiquei esperando ligação de notícia.
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No dia seguinte, uma prima liga para mim:
"Michelle, o Neto tá bem? Fiquei sabendo que ele foi pro hospital... Criatura, e você, como tá? Fiquei mooorta de preocupada contigo também! Me disseram que tu ficou tão desesperada com o ocorrido que saiu correndo desembestada rua abaixo, gritando e puxando os cabelos, só de camisola, suja com o sangue dele... foi verdade??? Mulher, isso parece coisa de espírito ruim, , eu conheço uma benzadeira ex-ce-len-te, deixa te dar o número."
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Hoje em dia, posso dizer: Ceticismo, teu nome é família Sobreira.

Terça-feira, 28 de Abril de 2009

O Ônibus Mágico


Fazia tempo em que nada de bizarro acontecia comigo. As viagens de ônibus estavam calmas e comuns, as pessoas com quem eu cruzava eram mundanas e fadigadas, sem esquecer de mencionar as ruas cinzas e absurdamente previsíveis. Um completo tédio. Para mim, toda essa falta de estranheza era estranha demais.
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Já estava eu começando a sentir-me esquecida pelo Universo, como se não tivesse mais o direito de ver o invisível, como se eu agora fosse uma pessoa comum. Tá, soou meio - ou muito! - prepotente, mas é a verdade. Mas será que o problema era mesmo comigo? Fui tomada pela banalidade do mundo e meus olhos tornaram-se incapazes de enxergar o onírico? Estarei eu cega, meu deus? Por que raios...?
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Minha situação piorou quando percebi que não só passei a achar todo o mundo desinteressante como também as memórias em minha mente não eram mais tão engraçadas como eu sempre achei que eram. Tudo muito normal, irritantemente normal! Que droga!
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Eu precisava de ajuda.
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Foi quando eu peguei o ônibus Av. Santos Dumont.
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O ponto estava lotado. Passavam vários ônibus e nenhum deles era um que servia ao meu destino. Depois de mais de meia hora de espera e resignada impaciência - se é que tal coisa existe -, eis que vislumbro o ônibus vindo ao longe. Logo após o alívio, tratei de preparar-me psicologicamente, pois ele certamente viria lotado e metade daquelas pessoas que esperavam comigo também deviam estar esperando por ele. O ônibus pára.
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Surpresa, o ônibus estava vazio.
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Espanto, apenas eu entro no ônibus.
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Com a sobrancelha esquerda erguida, subo os degraus que estavam limpos demais para uma condução. Ônibus novo? Imediatamente percebo que, sentados dentro do ônibus, haviam apenas quatro pessoas além de mim. Passo a catraca e sento-me, pondo-me a observar com curiosidade meus colegas de condução.
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O motorista era homem de seus trinta e poucos anos, com um bigodinho fininho e seboso rente ao lábio superior, magro de pele parda, óculos escuros.
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O trocador era rapaz de seus vinte e poucos anos, possuía uma das pernas atrofiadas e o rosto marcado por espinhas. Olhar perdido e sonolento. Acredito deu meu troco dormindo, embora seus olhos estivessem abertos e o dinheiro contado certo.
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Havia também uma adolescente dessas metidas a moderninha, com vestimentas axadrezadas, montando um look gótico com sua maquiagem roxa e lábios vermelhos. Tinha fones de um ipod vermelho socados nos ouvidos e balançava as pernas com o que julguei ser o ritmo da música.
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O mais normal de todos era um homem, pra lá dos quarenta, olhos fechados. Julgaria que estivesse dormindo, não fosse pelas mãos que se mexiam de vez em quando, conferindo o bolso.
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Quando voltei minha atenção para o trajeto do ônibus, reparei que todos os sinais pelos quais passávamos estavam verdes. Ou abriam quando o ônibus se aproximava. Para aumentar meu nível de excitamento, ninguém dava sinal para descer ou alguém do lado de fora pedia para o ônibus parar. O ônibus seguia incólume, veloz, pelas ruas com trânsito fraco demais para aquele horário. Será possível que seria tudo uma grande coincidência?
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Minha cabeça já estava a mil, pensando absurdos tamanhos que somente meu cérebro infame poderia conjecturar, quando, finalmente, o ônibus freia. Uma senhora fez sinal para o ônibus, o que me fez murchar totalmente com minha própria insanidade, como se levasse um tapa do mundo real.
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Frustrada, observei a velha entrar pela porta de descida, como todos os idosos faziam. Foi quando minha mente quase espocou e segurei um grito de satisfação quando a mulher olhou para mim. Pessoas, eu juro. Ela era horripilantemente caolha. Não era apenas cega de um olho... Ela NÃO TINHA um olho. Ao lado do buraco enorme na face esquerda, o outro olho perscrutava, muito arregalado, todo o interior do ônibus, deixando óbvio o azul claríssimo e perturbador de sua íris. Os outros passageiros sequer pareceram perceber que havia mais alguém no ônibus.
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O motorista continuou seu caminho, só parando novamente quando eu mesma - muito a contragosto - apertei a campainha para descer. Eufórica, e um tanto lisonjeada por ter sido escolhida para andar naquele ônibus, levantei-me e dirigi-me à porta. Nesta hora, senti uma mão gelada no meu pulso e fui surpreendida pelo olhar penetrante da velha caolha.
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- Tenha um bom dia, minha filha.
- Para a senhora também.
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Sorrimos uma para outra e desci do ônibus, esperando, um dia, pegar essa condução mais uma vez na minha vida.

Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2009

As Donas de Casa do Pirambu


Elas não são ricas. Não tem acesso à tratamentos cosméticos de primeira linha, cabelereiros de estrelas, jóias verdadeiras, roupas de grife ou personal stylist. Não se enquadram nos padrões de beleza que a televisão propaga diariamente, muito pelo contrário. Apesar de tudo isso, de todas essas cruéis desvantagens, elas têm algo que a maioria das mulheres não conseguem manter: uma auto-estima inabalável.
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Conheçam, pois, as donas de casa do Pirambu.
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Elas andam pelas ruas sem o menor pudor de exibirem uma barriga mais que saliente em roupas justíssimas, mesmo que apareça a cicatriz de uma cesariana mal feita. Desfilam com firmeza, deixando um rastro de água de colônia e Neutrox, sorrindo faceiras para os homens que as olham com curiosidade. Compram shorts mínimos, para ressaltar seus melhores - e maiores - contornos, assim como as mulheres-fruta, suas inspirações. E isso tudo sem perder de vista os sete filhos remelentos que jogam futebol no asfalto.
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Acham-se lindas, maravilhosas, poderosas - e por quê não?
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Todas as mulheres deveriam ser assim. Eu deveria ser assim. Impressiono-me sempre em como nós mulheres conseguimos acumular tanta insatisfação consigo mesmas - e refiro-me não apenas ao físico - a ponto de esquecer nossos pontos fortes. Será que sempre precisaremos de que um homem nos lembre que somos belas, que podemos ser belas? Até eles cansarão um dia.
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Mas, como viver é sempre aprender, vamos nos esforçar para cultivarmos pelo menos um pouquinho a auto-estima das donas de casa do Pirambu, mulherada!
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Claro, sem a parte dos micro-shorts, das banhas expostas, do cheiro de Neutrox e de outras cositas pra lá de bregas, né?

Quarta-feira, 19 de Novembro de 2008

O Homicídio do Periquito e do Peba

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Amanhecia na casa de Cícero do Carmo.
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Como fazia desde pequeno, Cícero acordou muito cedo - cerca de quatro e meia da manhã - para começar seu ritual matinal: puxar água da velha bomba, pegar ovos no galinheiro, dar alpiste ao periquito, jogar a lavagem de ontem para os porcos e alimentar o seu querido peba. Esperaria até as cinco horas, como sempre, para acordar a esposa e os quatorze filhos que dormiam placidamente, naquela manhã igual a todas as outras.
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Pegou o balde e dirigiu-se ao quintal, acompanhado por Pirata, sua velha cadela, buchuda talvez pela décida quinta vez. Mas uma coisa Cícero do Carmo não esperava. Aquela manhã não seria igual a todas as outras para ele. Um duplo homicídio ocorrera no calar da noite. Dois corpos jaziam inertes no chão do quintal. De um lado, mutilado debaixo de sua gaiola, estava o periquito que pertencia à uma de suas filhas. De outro lado, o primo nordestino do tatu, de cabeça para baixo como uma barata morta, com seu casco rachado e destruído.
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Um alvoroço fez Cícero do Carmo. Agoniado e enraivecido, acordou à casa inteira aos gritos, exigindo saber quem foi o autor daquela barbárie.
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Uma investigação foi instaurada. A cena do crime começou a ser analisada com afinco, principalmente por um dos filhos de Cícero, que tinha especial apego aos animais. Foi ele quem chamou a atenção do pai para uma mancha de sangue em uma das paredes do quintal, diametralmente oposta ao corpo do peba assassinado. Havia rachaduras no centro da mancha, indicando impacto. Primeira evidência: o ferimento no casco do defundo combinava exatamente com o sangue na parede, revelando que o animal fora atirado brutalmente contra a mesma.
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D. Delmira, esposa de Cícero do Carmo, quis sair do quintal alegando que aquela movimentação a perturbava, mas foi impedida com veemência por seu filho CSI - todos eram ali eram suspeitos.
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Segunda evidência: a boca do tatu nordestino estava repleta de penas, da mesma cor do periquito destroçado, indicando que a última ação do peba foi devorar o periquito. Com mais esta informação, uma das filhas de Cícero do Carmo se empertigou, o que não passou desapercebido pelo jovem CSI. Quando questionada sobre sua reação suspeita, a menina pôs-se a chorar descontroladamente, confessando que esquecera de trancar a gaiola do periquito depois de trocar sua água, noite passada.
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Um sorriso surgiu nos lábios do aprendiz de investigador. Sim! Descobrira o culpado.
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Entretanto, todo seu momento de glória fora apagado, pois o assassino revelou-se subitamente, voando com rapidez na garganta da garota que deixara a gaiola aberta. A pequena Fatinha, dona do periquito - e cruel assassina do peba - agrediu a irmã à socos e mordidas, demonstrando toda a fúria da qual o pobre peba fora vítima.
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A garota homicida foi imobilizada por seu pai, que, devastado, perguntava o porquê de tão abominável ato contra uma criatura irracional, que seguira apenas seus instintos. Sem ter uma resposta, Cícero do Carmo continuou:
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- Minha filha... Praticar esse tipo de ato traz consequências. Você não pode descontar sua raiva com esse nível de violência, pois você acaba recebendo um castigo que pode ser tão ruim quanto o mal que você praticou.
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Depois de um minuto de silêncio, a garota olha friamente nos olhos de seu pai e, abrindo um belo sorriso, diz:
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- E por acaso estou no inferno agora?
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E Cícero do Carmo não dormiu por três dias.

Sexta-feira, 12 de Setembro de 2008

Aprendi na Porrada: Ursinho Pimpão


Quando tinha apenas 2 anos de idade e meu irmão do meio apenas 1 ano, minha mãe era escrava das Lojas Americanas e meu pai professor de escola Pública em Paracuru. Precisavam muito do dinheiro para sustentar os dois filhos (nem imaginavam que ainda vinha um terceiro), sendo somente isso que justificava o fato de praticamente não nos verem. Eu e meu irmão ficávamos aos cuidados de algumas tias nossas e uma babá, que tratavam-nos como bibelôs de gesso. Resultado: extremamente mimados.
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Meus pais chegavam em casa à noite e faziam questão de nos alimentar e cantar para que dormíssemos, pois eram os únicos momentos em que interagíamos. Meu pai sempre cantava a música Ursinho Pimpão da Simoni nesses momentos, de modo que fiquei muito acostumada com a canção. Já meu irmão estava nem aí pra ursinho nenhum, era só uma máquina viva de comer e dormir.
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Depois que minha mãe abandonou as Americanas porque viu a babá estrangulando meu irmão (ela deu uma surra na mulher, outro dia eu conto), viu o quanto os filhos - eu, principalmente - estávamos terrivelmente mimados. Meu pai chegava cansado, mas eu só comia se ele tocasse Ursinho Pimpão. Só tomava banho se ele tocasse Ursinho Pimpão. Só dormia se ele tocasse Ursinho Pimpão. E tinha que ser no violão. Caso o pobre homem recusasse, tome duas horas de choro para aprender a não me contrariar! Começou porque quis, ora bolas!!!
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Mamãe, já de saco cheio da história, uma noite disse ao meu pai:

- Tu não vai tocar Ursinho Pimpão hoje.
- Porquê? - indagou o marido, com o violão na mão.
- Essa menina tem que parar com isso.
- Eu sei, mas ela vai começar a chorar e tô cansadão... Bóra fazer o que ela quer.
- Me dá esse violão! - disse a mulher, tomando o instrumento - Essa menina não vai ouvir porcaria de urso nenhum hoje! Ela tem que aprender!!!
- (suspiro)
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Como de praxe, ao ver que não rolava a canção, abri o berreiro. Mami só pegou minha mão de palma pra cima e meteu a lenhada.
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- Vai comer sem música!!!!
- BUÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁ!!!!!
- CALA A BOCA!!!
- ...snif...
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Depois que eu comi tudo bonitinho, sem fazer barulho, minha mãe - meio arrependida de ter me dado uma mãozada - me abraçou e disse:
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- Viu, Chellinha? Você não precisa ouvir Ursinho Pimpão pra comer.
Pequena Chell assente com a cabeça.
- Ô menina linda!!! Dá um abraço na mãezinha!
Pequena Chell abraça.
- Vem dormir que amanhã a gente vai pra praia! Êêêêê!!!!
Pequena Chell bate palmas.
Então, depois de fazer as pazes com minha mãe, deitei para dormir, não sem antes dizer:
- Mãezinha...?
- Oi, filha?
- Num peciso do urshinho Pimpão pá cumê, mas pá durmir eu peciso, viu?
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Não preciso dizer o que aconteceu depois.

Sexta-feira, 22 de Agosto de 2008

Frango Lee

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Na casa de meu avô materno, foi criada toda sorte de animais. Cada um dos nove filhos de Expedito criou algum tipo de bicho, seja ele comum ou não. Cachorros, periquitos, patos, lagartos, cabritos, calangos, porcos e até mesmo um peba (primo nordestino do tatu) estão incluídos nos bichinhos de estimação que a família Do Carmo possuiu em vários anos.
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Um dos bichos que mais marcou a infância dos irmãos do Carmo foi um galo de briga que pertenceu a um dos irmãos mais novos de mamãe. O animal foi um presente de meu avô para acalmar o filho, que andava muito afoito para se parecer cada vez mais com o grande astro da época: Bruce Lee. O garoto estava totalmente alucinado por artes marciais, ensaindo golpes, chutes e gritos horrendos. Então um galo de briga foi o presente perfeito. E que outro nome teria o galo, se não Frango Lee?
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Frango Lee era a sensação da rua. Todos os moleques iam na casa de meu avô para contemplar o bonito e valente galo dar uma lição nos gatos que a meninada jogava em cima dele. Meu tio promovia apostas de quem conseguia segurar Frango Lee (que era orgulhoso e só deixava o dono encostar nele) ou se existia algum animal que seria páreo para o fabuloso galo. Pouco importavam as reclamações de minha avó sobre a gritaria sem fim no jardim, pois meu tio era só orgulho.
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Frango Lee era o melhor.
Frango Lee arrebentava.
Todas as galinhas só queriam o Frango Lee.
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Um belo dia, meu tio chegou do colégio e, como de praxe, foi logo ver seu amado galináceo. Procurou e procurou no quintal, sem encontrá-lo em lugar nenhum. Perguntou para os vizinhos, mas ninguém sabia o paradeiro do bicho. Já preocupado, entrou no quarto de minha mãe, perguntando "onde está o Frango Lee?". Como resposta, obteve um olhar de indagação. Desesperou-se.
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- Cadê o Frango Lee? Cadê o meu galo? Pai, cadê ele? Porque ninguém me diz??? FRANGO LEE!!!
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Minha avó, impassível, disse:
- Francisco, vem almoçar. Depois você procura o diabo desse galo.
- Mas... - o olhar do garoto era só confusão.
- Come. Hoje é galinha.
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Seu sangue congelou. Ao olhar para o prato, viu seu pior pesadelo: um ensopado de frango. Ainda estático, viu debaixo da mesa da cozinha duas penas azuis. Penas do Frango Lee.
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- A SENHORA MATOU O FRANGO LEEEE!!!!!!!
- Tá doido, menino! Com tanta galinha aí, porque eu ia matar teu galo??
- F-Frango Lee...
- COME LOGO!!!
Sendo obrigado pela própria mãe, ele comeu, aos prantos.
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Meu avô gritou e gritou com a esposa, que jurou de pé junto que não tinha matado o galo. Depois de um tempo, o homem chegou à conclusão de que não havia mais nada que pudesse fazer, até porque ele queria acreditar que não era casado com um monstro. Titio ainda procurou pelo frango por vários dias, mas, sem sucesso, desistiu. Continuou sua vida e tentou esquecer Frango Lee.
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Até hoje, ele não gosta de falar do assunto, pois as lembranças sempre vêm com uma terrível sensação: a de ter comido um ensopado do seu amado Frango Lee.