O que mais gosto de estar inserida na realidade do Pirambu é que posso realizar observações antropológicas terrivelmente empíricas, mas que satisfazem com presteza meu acanalhado eu interior. No caso, um dos dias em que melhor realizo essas observações é, definitivamente, os dias de eleição.
No Pirambu, dia de eleição é melhor do que dia de feira. É melhor que a missa de domingo ou o circo de leões famintos que aparece de vez em quando por lá. Dia de eleição, no Pirambu, é comparado com o Natal. É uma festa.
Todos ficam nas calçadas, observando o movimento de pessoas. A grande maioria se veste com a roupa de shopping e caminha orgulhosa para a famigerada fila dos cidadãos que escolherão seus governantes (escolha baseada em análises e bom senso, claro, nada a ver com a cesta básica da semana passada). Barraquinhas de milho verde, churrasquinho de felinos e sanduíches gordurosos de R$2,00 enchem as calçadas, como se em dia de comício. Em uma ou outra esquina, uma displicente boca de urna.
Na fila, as senhoras conversam sobre quais candidatos seriam melhor para o povo, cheias da mais profunda consciência política.
- Mulher, eu vou é votar na Dilma. O Lula mandou, né, mas nem sei de onde ela foi prefeita, pra dizer a verdade.
- ‘Xa de ser burra, bicha, ela foi ministra da casa civil! É muita coisa!
- E o que tem demais nessa casa civil que nem sei?
- Sei não, mas meu marido que entende das política disse que tem alguma coisa a ver com o Minha Casa Minha Vida.
- Aaah...
Durante minha espera na fila da seção, eu tentava me entreter com esse tipo de conversa, mas era muito difícil achar graça quando estamos há vários minutos em pé. O que era para ser uma votação rápida tornou-se um tormento, pois existem criaturas de todos os tipos votando lá no Pirambu.
Dentre elas, a mulher que não sabia que para confirmar o voto tinha que apertar o botão verde e, não, o laranja. Também tinha senhora que teimava em não querer votar para senador por não ter candidato ou que desistiu de votar na metade do processo, indignando-se porque o mesário não a deixou ir em paz. Houve o rapaz que esqueceu o número de seu presidente e, quando tentou tirar dúvida com o mesário, vários na fila começaram a gritar o número do concorrente. Dois bêbados que não tinham a menor ideia de como foram parar lá. Teve também o homem que insistia que sua seção era ali e que seu nome não constava na lista porque alguém tinha apagado de propósito. Crianças aos montes, com cheiro de xilito e urina, sempre, mas sempre gritando.
E eu, enlouquecendo em meio a esse pandemônio.
Entretanto, devo dizer, tudo valeu a pena depois que votei. Inacreditável a sensação de ter todo mundo te olhando com intensa admiração, achando incrível sua inteligência por levar menos de 30 segundos para votar.

