Fazia tempo em que nada de bizarro acontecia comigo. As viagens de ônibus estavam calmas e comuns, as pessoas com quem eu cruzava eram mundanas e fadigadas, sem esquecer de mencionar as ruas cinzas e absurdamente previsíveis. Um completo tédio. Para mim, toda essa falta de estranheza era estranha demais.
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Já estava eu começando a sentir-me esquecida pelo Universo, como se não tivesse mais o direito de ver o invisível, como se eu agora fosse uma pessoa comum. Tá, soou meio - ou muito! - prepotente, mas é a verdade. Mas será que o problema era mesmo comigo? Fui tomada pela banalidade do mundo e meus olhos tornaram-se incapazes de enxergar o onírico? Estarei eu cega, meu deus? Por que raios...?
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Minha situação piorou quando percebi que não só passei a achar todo o mundo desinteressante como também as memórias em minha mente não eram mais tão engraçadas como eu sempre achei que eram. Tudo muito normal, irritantemente normal! Que droga!
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Eu precisava de ajuda.
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Foi quando eu peguei o ônibus Av. Santos Dumont.
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O ponto estava lotado. Passavam vários ônibus e nenhum deles era um que servia ao meu destino. Depois de mais de meia hora de espera e resignada impaciência - se é que tal coisa existe -, eis que vislumbro o ônibus vindo ao longe. Logo após o alívio, tratei de preparar-me psicologicamente, pois ele certamente viria lotado e metade daquelas pessoas que esperavam comigo também deviam estar esperando por ele. O ônibus pára.
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Surpresa, o ônibus estava vazio.
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Espanto, apenas eu entro no ônibus.
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Com a sobrancelha esquerda erguida, subo os degraus que estavam limpos demais para uma condução. Ônibus novo? Imediatamente percebo que, sentados dentro do ônibus, haviam apenas quatro pessoas além de mim. Passo a catraca e sento-me, pondo-me a observar com curiosidade meus colegas de condução.
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O motorista era homem de seus trinta e poucos anos, com um bigodinho fininho e seboso rente ao lábio superior, magro de pele parda, óculos escuros.
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O trocador era rapaz de seus vinte e poucos anos, possuía uma das pernas atrofiadas e o rosto marcado por espinhas. Olhar perdido e sonolento. Acredito deu meu troco dormindo, embora seus olhos estivessem abertos e o dinheiro contado certo.
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Havia também uma adolescente dessas metidas a moderninha, com vestimentas axadrezadas, montando um look gótico com sua maquiagem roxa e lábios vermelhos. Tinha fones de um ipod vermelho socados nos ouvidos e balançava as pernas com o que julguei ser o ritmo da música.
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O mais normal de todos era um homem, pra lá dos quarenta, olhos fechados. Julgaria que estivesse dormindo, não fosse pelas mãos que se mexiam de vez em quando, conferindo o bolso.
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Quando voltei minha atenção para o trajeto do ônibus, reparei que todos os sinais pelos quais passávamos estavam verdes. Ou abriam quando o ônibus se aproximava. Para aumentar meu nível de excitamento, ninguém dava sinal para descer ou alguém do lado de fora pedia para o ônibus parar. O ônibus seguia incólume, veloz, pelas ruas com trânsito fraco demais para aquele horário. Será possível que seria tudo uma grande coincidência?
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Minha cabeça já estava a mil, pensando absurdos tamanhos que somente meu cérebro infame poderia conjecturar, quando, finalmente, o ônibus freia. Uma senhora fez sinal para o ônibus, o que me fez murchar totalmente com minha própria insanidade, como se levasse um tapa do mundo real.
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Frustrada, observei a velha entrar pela porta de descida, como todos os idosos faziam. Foi quando minha mente quase espocou e segurei um grito de satisfação quando a mulher olhou para mim. Pessoas, eu juro. Ela era horripilantemente caolha. Não era apenas cega de um olho... Ela NÃO TINHA um olho. Ao lado do buraco enorme na face esquerda, o outro olho perscrutava, muito arregalado, todo o interior do ônibus, deixando óbvio o azul claríssimo e perturbador de sua íris. Os outros passageiros sequer pareceram perceber que havia mais alguém no ônibus.
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O motorista continuou seu caminho, só parando novamente quando eu mesma - muito a contragosto - apertei a campainha para descer. Eufórica, e um tanto lisonjeada por ter sido escolhida para andar naquele ônibus, levantei-me e dirigi-me à porta. Nesta hora, senti uma mão gelada no meu pulso e fui surpreendida pelo olhar penetrante da velha caolha.
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- Tenha um bom dia, minha filha.
- Para a senhora também.
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Sorrimos uma para outra e desci do ônibus, esperando, um dia, pegar essa condução mais uma vez na minha vida.