quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Votando no Pirambu


O que mais gosto de estar inserida na realidade do Pirambu é que posso realizar observações antropológicas terrivelmente empíricas, mas que satisfazem com presteza meu acanalhado eu interior. No caso, um dos dias em que melhor realizo essas observações é, definitivamente, os dias de eleição.

No Pirambu, dia de eleição é melhor do que dia de feira. É melhor que a missa de domingo ou o circo de leões famintos que aparece de vez em quando por lá. Dia de eleição, no Pirambu, é comparado com o Natal. É uma festa.

Todos ficam nas calçadas, observando o movimento de pessoas. A grande maioria se veste com a roupa de shopping e caminha orgulhosa para a famigerada fila dos cidadãos que escolherão seus governantes (escolha baseada em análises e bom senso, claro, nada a ver com a cesta básica da semana passada). Barraquinhas de milho verde, churrasquinho de felinos e sanduíches gordurosos de R$2,00 enchem as calçadas, como se em dia de comício. Em uma ou outra esquina, uma displicente boca de urna.

Na fila, as senhoras conversam sobre quais candidatos seriam melhor para o povo, cheias da mais profunda consciência política.

- Mulher, eu vou é votar na Dilma. O Lula mandou, né, mas nem sei de onde ela foi prefeita, pra dizer a verdade.

- ‘Xa de ser burra, bicha, ela foi ministra da casa civil! É muita coisa!

- E o que tem demais nessa casa civil que nem sei?

- Sei não, mas meu marido que entende das política disse que tem alguma coisa a ver com o Minha Casa Minha Vida.

- Aaah...

Durante minha espera na fila da seção, eu tentava me entreter com esse tipo de conversa, mas era muito difícil achar graça quando estamos há vários minutos em pé. O que era para ser uma votação rápida tornou-se um tormento, pois existem criaturas de todos os tipos votando lá no Pirambu.

Dentre elas, a mulher que não sabia que para confirmar o voto tinha que apertar o botão verde e, não, o laranja. Também tinha senhora que teimava em não querer votar para senador por não ter candidato ou que desistiu de votar na metade do processo, indignando-se porque o mesário não a deixou ir em paz. Houve o rapaz que esqueceu o número de seu presidente e, quando tentou tirar dúvida com o mesário, vários na fila começaram a gritar o número do concorrente. Dois bêbados que não tinham a menor ideia de como foram parar lá. Teve também o homem que insistia que sua seção era ali e que seu nome não constava na lista porque alguém tinha apagado de propósito. Crianças aos montes, com cheiro de xilito e urina, sempre, mas sempre gritando.

E eu, enlouquecendo em meio a esse pandemônio.

Entretanto, devo dizer, tudo valeu a pena depois que votei. Inacreditável a sensação de ter todo mundo te olhando com intensa admiração, achando incrível sua inteligência por levar menos de 30 segundos para votar.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Lugares Oníricos: A Praia em Forma de Lua

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Desde sempre, existem três lugares com os quais eu sempre sonho. Nunca os visitei acordada, portanto, não sei se existem mesmo ou só na minha cabeça. Mas o fato é que consigo descrevê-los com uma riqueza de detalhes absurda e, sempre que sonho novamente com qualquer um deles, o local continua o mesmo. Inalterado.

Eis o primeiro deles:

A Praia em forma de Lua.

Nos meus sonhos é uma praia em forma de lua, cercada por rochas. É quase como Canoa Quebrada, só que de encostas mais altas e pedregosas, impossíveis de escalar. A faixa de areia é estreita, mas se prolonga por toda parte interna da "lua". Lá sempre está entardecendo.

Em uma das pontas, existe uma casa branca, de dois andares, que possui um deque na sua frente com algumas cadeiras e mesas de pedra. Por vezes, o deque está lotado de pessoas barulhentas, que não são donas da casa e as quais não conheço. Por vezes, está totalmente vazio.

Nunca consegui entrar na casa e, nas poucas vezes que tentei, ela sempre está trancada. Pelas vidraças das portas, consigo ver uma bela sala com sofás marfim, um tapete felpudo e quadros que já vi em algum lugar. Está sempre à meia-luz de dois abajours. Possui uma lareira - que vi acesa somente uma vez - e um corredor no seu lado esquedo que não sei para onde vai. Nunca vi ninguém lá dentro, mas sei que tem uma pessoa morando lá.

Ao lado dessa casa, um píer de madeira, que adentra solitário no mar.


Na outra ponta da praia, existe uma caverna. Entrei lá apenas duas vezes... Não foram sonhos muito bons. Dá para chegar nela apenas com a maré baixa. Quando ela enche, o único lugar seguro é a casa. Se a maré encher enquanto se está na caverna, não tem jeito, tem que passar a noite inteira dentro da lá dentro. Aconteceu uma vez. Para que as ondas não me pegassem, tive de ficar em cima de uma enorme pedra circular, que fica metade dentro da caverna, metade fora.

Passar a noite lá nunca é bom... O interior dela é de uma escuridão arrepiante, de onde se pode ouvir apenas os sons das ondas quebrando e - de vez em quando - vozes.


Tomei banho algumas vezes no mar, mas nunca na companhia de alguém. A água é gelada e aflita. Como se o mar quisesse - precisasse - desabafar. Aliás, sonhar nessa praia sempre é um solitário e pensativo. Por vezes agradável, por vezes inquietante. Já cheguei lá de barco. Já tive oportunidade de entrar mais para o interior da caverna, mas tive medo... Não sei se quero entrar lá. Na casa, porém, adoraria entrar. Tenho certeza de que é aconchegante, que tem alguém dormindo no andar de cima e que essa pessoa anseia que eu a acorde. Mas a casa sempre está trancada. Não sei onde está a chave, pois ela desapareceu.

"Está dentro da caverna!" - falou uma voz atrás de mim, na última vez que tentei abrir aquela porta. Olhei para trás. Somente o mar. Eu sabia.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Doutor Mengeli


A sala era branca e limpa, como todo consultório odontológico deve ser. Na minha odisséia de 15 anos de aparelhos dentários, aprendi a ser destemida com dentistas. Estava tranqüila. Nas paredes, quadros de singelas paisagens ajudavam a ambientar o lugar. O odontologista sorria para nós duas, explicando como ele iria extrair os meus sisos.
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Deitada na cadeira e com a boca escancarada, esperei ele avaliar a situação, enquanto pensava em terminar de ler o "O Dia do Coringa", que estava na minha mochila. Minha mãe estava sentada em um sofá ao lado, lendo uma Caras do ano anterior.
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- Pronto, minha querida! - disse o homem - Vamos começar, né?
- Vamos.
- Olhe, eu vou aplicar uma anestesia para você ficar relaxada, tá bom?
- Tudo bem, não tenho medo não, seu doutor. - respondi, confiante.
- Tem medo não, é? É que já vi tanta gente chorando nessa cadeira que a gente se acostuma.
- ...
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Mamãe levanta os olhos da revista.
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- E ela pode sentir dor assim, doutor?
- Sabe como é, D. Fátima, as pessoas se acham fortes, mas sempre tem uma criança chorona escondida lá no fundinho.
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Olhei para minha mãe, com olhar de "mas, hein?" e ela devolveu com um de "não faço idéia". Com a seringa em punho, o homem falou:
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- Minha filha, abra a boca e respire beeeem fundo... Imagine-se em um campo florido, bem aconchegante, cheio de paz e tranqüilidade... Você está descansada e feliz... Pense em algo que lhe deixe mais feliz ainda.... Tipo, brincar de boneca!
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Eu tinha 18 anos e nessa hora comecei a me assustar. Por quê raios ele estava falando daquele jeito? Ia doer tanto assim que era necessária aquela sessão de hipnose barata? Com isso, minha mãe fechou a revista e ficou observando, temerosa. Repentinamente, ele espetou a minha boca, encostando a ponta da agulha no osso da mandíbula.
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- AahhhunnnnHnn... - reclamei, enchendo os olhos de lágrimas.
- Calma, tá acabando!
- Doutor, ela tá gemendo de dor!!!
- Eou rôhim!!! - exclamei.
- Já estou terminando, espera só mais uuuuuuuuum seeeeguuuuundiiiiinhoooooooooooo...........................................
- AAAHHUNNNN!!!!!!!!
- Pronto.
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Era uma dor angustiante, fininha e profunda. Mas passou. "Bem, pelo menos agora estou anestesiada", pensei. Então ele pegou o bisturi e disse:
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- Não se mexa um milímetro! Congele! - consenti, claro, com os olhos arregalados em cima do bisturi.
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No primeiro corte, senti uma dor horrível. Gritei de boca aberta e ele parou.
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- Ué. Doeu? - estranhou o homem, olhando para a paciente com olhos vidrados - Então deixa eu aplicar outra dose aqui...
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Ele aplicou mais uma injeção. Mexeu no meu dente para testar se funcionara, mas eu ainda sentia dor. Aplicou mais outra. Dor menor, mas doeu. Aporrinhado, o homem aplicou uma dose cavalar em mim, anestesiando praticamente meu rosto inteiro. Chamou a enfermeira, que posicionou-se atrás de mim. Nesse momento começou o show de horror.
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A mulher agarrou firmemente minha cabeça, uma mão em cada orelha, enquanto o suposto dentista tentava arrancar os dentes com o alicate. Ele puxava e, como o dente não saía, ele TORCEU o alicate, tentando desparafusar o dente, enquanto empurrava minha língua para baixo com uma espátula de ferro na outra mão. O sugador não comportava a quantidade de sangue e baba que saía, e começou a escorrer em cima de minha blusa azul claro.
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Eu, apavorada, chorando de boca escancarada, gemia porque AINDA ESTAVA SENTINDO DOR. Minha mãe, de pé, exigia:
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- Pára com isso, ela não quer mais, solta ela!!!
- Nããão, calma aí, agora é questão de honra!!! - respondia o doido.
- Mas ela está sentindo dor! - retrucou a mulher, com medo de empurrá-lo e machucar-me.
- Tá nada, isso é manha!
- AAAAAAAHhhhhhhhnuUUUnnNnnnnnnnnAiiiiii - gritava eu, tentando xingá-lo.
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Depois três horas disfarçadas de dez minutos, dois dos dentes saíram. Eu estava totalmente dolorida. Quando me olhei no espelho, eu babava em vermelho com os olhos inchados, desgrenhada, com metade da boca caída pro lado, um olho semi-cerrado devido às anestesias e o outro terrivelmente arregalado. "Nunca mais vou voltar ao normal..." - cheguei a pensar.
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- Pronto, tome esses remédios da receita, lave bem a boca, tome uma sopa de feijão com três pregos dentro e descanse.
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Chegando em casa, o efeito das anestesias passaram. A dor era excruciante - não conseguia, sequer, beber água. Minha boca não abria mais do que dois centímetros. Minha língua estava roxa e inchada.
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Pior é que, uma semana depois, tive de voltar lá para tirar os outros dois porque não tinha outro médico segurado na época. Chorei, esperneei, mas não teve jeito, fui. Tomei três Dramins antes a fim de apagar, mas foi o mesmo suplício. Ao final de tudo, saímos correndo do consultório logo depois de passar o cheque, sem olhar para trás e para longe daquele monstro que se auto-proclamava odontologista. Mas, do outro lado do corredor, ainda conseguimos ouvir:
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- Volte sempre!
- VAI TE LASCAR, MENGELI DESGRAÇADO! - encerrou minha mãe.
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*Nota: Quem foi Josef Mengeli? >>> http://pt.wikipedia.org/wiki/Josef_Mengele

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Homem em corpo de Mulher


Aos 5 anos de idade, formulei uma hipótese baseada em uma terrível desconfiança que brotava em minha cabeça. Desde então, minha vida transformou-se em uma assustadora seqüência de absurdos que comprovavam que a tal hipótese era um fato sólido. Sim, sou um homem em um corpo de mulher.
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A hipótese formou-se enquanto estava de castigo, furiosa, após dar uma surra em um colega do jardim de infância que não me deixou brincar de carrinho com ele. Dei um soco de mão fechada, assim como vi em um filme de luta da Sessão da Tarde. A professora ficou horrorizada, ainda que minha mãe morresse de orgulho. E as meninas de verdade a brincarem de bonecas.
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Antigamente, a única coisa que me diferenciava dos outros meninos eram minhas roupas de menininha - minha mãe que comprava - e no momento em que todos escreviam o próprio nome com urina no muro, enquanto eu tinha de me rebaixar e usar o banheiro. Confesso que, particularmente, sempre morri de inveja desse negócio de mijar em pé.
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Enfim, desde sempre, adoro filmes de pancada e sei proferir xingamentos sórdidos com naturalidade. Brinquei mais de pipa, peão e bila do que de Barbie. A maioria dos meus amigos são homens. Adoro uma cerveja gelada, uma conversa de bar, assistir o futebol y otras cositas más. Coisas tipicamente masculinas. Não sei como não gosto de mulher!
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Talvez por ser a única mulher em 17 anos de crescimento demográfico na minha família, sempre identifiquei-me mais com os homens e tive mais facilidade de fazer amizade com eles. Tudo com eles é tão simples! Tudo muito honesto. Não há intrigas, disse-me-disse, competições vis, nem nada do gênero. Cumplicidade masculina, sabem? É difícil de mulher entender. De todo modo, sempre fui parte deles e tratada como igual. Até na hora de bater ou apanhar.
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Apesar disso tudo - e talvez por isso tudo - sou irremediavelmente apaixonada por eles. Não no sentido maldoso da coisa e, sim, de uma maneira colega. Empírica, até. Por favor, que fique entendido que não acredito que os homens sejam mais inteligentes e mais capazes do que as mulheres. Até porque sou fisiologicamente feminina, ué! Adoro cada conquista que as mulheres têm, tiveram e ainda terão! Mas, sério... é tão mais divertido ser homem!
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Felizmente para mim e alívio dos meus pais, já tenho o meu próprio homem. Por esse sim, sou maldosamente apaixonada. O problema é que ele está me transformando em uma dondoquinha fresca a cada dia que passa... Acho que ele não gosta mesmo de namorar uma mulher com a cabeça de um homem. Bem heterossexualmente falando, claro.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Eu não sei voar!!!


Eu não sei lidar com frustração. É uma das coisas contra que ainda tenho de lutar muito para evoluir como pessoa, isso é fato. Entretanto, até hoje, irrito-me demasiadamente quando algo me frustra. Mesmo. Claro, diversas coisas já me frustraram ao longo de minha vida. A variedade é grande, passando por comidas, atitudes, amigos, professores, trabalhos etc, embora deva reconhecer que em muitas delas eu tive - ainda tenho - a oportunidade de buscar algum tipo de compensação ou conserto. Todas, menos em uma:

Eu não sei voar nos meus sonhos.

Há uns 10 anos já me conformei que não posso voar como o Superman no mundo em que vivemos. Mas não conseguir voar nos sonhos irá me incomodar terrivelmente enquanto não conseguir. Sempre que tento, tenho obrigatoriamente que dar uma carreirinha - tipo a do Mário Bros, lembram? - para encher-me de energia e saltar para o vôo. Consigo voar uns duzentos a trezentos metros, mas sempre eu começo a perder força e vou perdendo altitude, como se meu life ou mana estivessem acabando.

Não riam, porque isso me incomoda profundamente!!!

Aqui e acolá, nesses alguns anos de vida onírica, consigo perceber que estava sonhando ainda enquanto dormia. Aí, dentro do sonho, penso feliz: "Ré! Agora eu vou conseguir voar decentemente! O sonho é MEU, esse mundo tá na MINHA cabeça, então controlo o que EU quiser! Hauahuahauhauhau!!!" [risada histérica].

Pfe! Porra nenhuma.

Já tive que fugir de ninjas, magos que lutavam dô, ladrões, macacos selvagens, agentes da matrix, mar revolto, meteoros, extra-terrestres, uma revoada de tucanos enlouquecidos, dentre outras bizarrices que só aparecem nos meus sonhos. Resultado: Tenho que correr feito uma desesperada, pular feito o Donkey-Kong (isso eu consigo fazer bem por lá), atirar bolas de energias. Voar que é bom, simples? Nada. O pior, não importa o quanto eu quebre a cara, sempre continuo tentando voar igual ao Superman porque, simplesmente, não lembro que já tentei outras 247 vezes.

Ontem tentei novamente.

Por favor, quem voar direitinho, fala pra mim, que a gente marca um ponto de encontro e se comunica lá dentro do sonho, que tal? Ou então monta um bizu e coloca aí no comment. Se não quiser se identificar, manda e-mail, sms, sinal de fumaça! Não quero ir para o túmulo com essa frustração!

Por favor, tenham pena de mim!
Não quero ter que correr de uma revoada de tucanos enlouquecidos novamente... É o pior dos pesadelos.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Aprendizados de uma Lobinha


Entre 1991 e 1994, eu e um dos meus irmãos fizemos parte de um grupo de escoteiros-mirins, que se chamavam de lobinhos. Todos os pais que lá inscreviam seus rebentos acreditavam que suas crianças iriam desenvolver senso de dever e cidadania, respeito ao meio-ambiente, liderança, pró-atividade, companheirismo, capacidade de socialização, boa forma física e, acima de tudo, disciplina. Obedecíamos a uma rígida hierarquia, onde até mesmo as atividades de recreação tinham regras e controle. Sairíamos de lá mais educados, inteligentes e ágeis.
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Não sei se saí de lá essas cocadas todas, mas posso citar algumas lições que aprendi.
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1. O poder das mulheres.
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Em um grupo de 30 crianças, haviam apenas duas meninas: eu e a Marina, uma menina que estudava no mesmo colégio que eu. No começo, até tentávamos fazer alguma coisa útil, como montar a barraca, fazer fogueira e outras atividades de índio que sempre nos passavam. Acontece que todos os meninos, cheios de más intenções - homem é homem desde a infância -, sempre eram extremamente solícitos e faziam tudo pela gente. Em suma, não fazíamos absolutamente nada. Nada mesmo.
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2. Furtividade.
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Uma vez por bimestre, havia viagens e acampamentos para interiores próximos, simulando uma selva. Na maioria das vezes era divertido, mas tínhamos a terrível obrigação de comer folha e fazer nossa própria comida. Como eu e meu irmão não comíamos nada que fosse obviamente de origem vegetal e não sabíamos sequer fritar um ovo, meus pais resolveram entrar na administração do grupo de escoteiros para poderem nos acompanhar nas viagens.
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Nesse período, no meio da noite, ouvia-se um silvo saindo do meio do mato. Ninguém desconfiava de nada - "deve ser um animal selvagem", especulavam as crianças - mas eu e meu irmão, treinados, saíamos às escondidas das barracas à procura da origem do som. Em vez do animal, encontrávamos mamãe, agachada no meio do mato escuro, com uma garrafa de refrigerante cheia de leite com nescau e um pacote de biscoitos de chocolate. Engolíamos todo o contrabando rapidamente, para, então, voltarmos para as barracas, silenciosamente empanturrados. Nossos líderes simplesmente não entendiam como nós continuávamos em pé sem ter comido absolutamente nada durante o dia.
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3. Técnicas de teatro.
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Em um desses famigerados acampamentos, tivemos que subir uma serra. Meus pais não quiseram ir - há limites! - e ficaram na fazenda no pé da serra com meu irmão mais novo. Eu e meu outro irmão não tivemos opção. Nossos líderes organizaram as alcatéias e fomos subindo o diabo da serra.
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Nessa época, eu era muito mais franzina e fraca, portanto, a subida era penosa e difícil. Quando já estávamos no quinto final da subida, eu já estava alucinada de cansaço. Queria parar, descansar, deitar, mas não podia. Eu era a Beta da minha alcatéia! Tinha de dar o exemplo! Somente uma desgraça me salvaria daquela subida maldita com a devida honra. Foi quando eu, ativando meus talentos artísticos, "desmaiei".
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Os adultos ficaram completamente desesperados. Fizeram respiração boca-a-boca pelo meu nariz - graças, pois não queria que meu primeiro beijo fosse com um velho de 25 anos -, água na cara e, finalmente, o que me obrigou a "acordar": álcool no nariz. Meio zonza de verdade, "acordei", fazendo cara de desalento e um tanto mais fraca que o normal. Todo mundo acreditou e fiquei o resto da atividade placidamente deitada em uma sombra, tomando água de coco, enquanto a pivetada se matava nas atividades que eram obrigadas a fazer no topo da serra.
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Para minha satisfação, desci a serra carregada. Meus líderes estavam apavorados com o momento em que teriam que dizer o ocorrido para minha mãe, pois todo mundo já sabia que a mulher era mais valente que um cão sem dono. Mas, sem nenhuma reação violenta, mas com a firmeza de um jacarandá, ela que resolveu tirar os filhos daquela loucura.
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Devo ressaltar que ninguém jamais desconfiou da minha encenação. Muitos anos depois, meus pais ficaram um tanto chocados quando dissemos que não aprendemos porra nenhuma nos lobinhos (quase perderam os olhos, arregalados com a história da serra). Mas, depois de muita discussão sobre as lições que teríamos tirado daquela situação toda, minha mãe encerrou a questão com uma frase:
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"Pelo menos vocês aprenderam a amarrar o cadarço do próprio sapato".
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De fato, foi a única coisa útil que aprendi.
Sem mentira nenhuma.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Uma boa Gororoba!

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Eu adoro uma boa gororoba. Para quem não sabe, trata-se de uma refeição feita de um conjunto de vários alimentos, que podem combinar ou não, ser do mesmo dia ou não, geralmente úmida, feia e com farofa. Adoro!
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Aquele prato com uma massa disforme - você consegue até fazer uma bola! - que se pode separar em pedacinhos para comê-los um a um, sem a menor possibilidade de identificar o que é a sardinha enlatada ou o que é a almôndega ao molho de ontem. Tá, eu sei que, teoricamente, o certo é sentirmos o gosto de todos os alimentos, saboreá-los um a um, blá, blá, blá... Besteira! Ora mais! Se o bom da gororoba é que cada prato tem um gosto diferente, dependendo das proporções das iguarias que se coloca na mistura! Puro improviso gastronômico! Quase arte!
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Confesso que quando me encontro em um lugar mais refinado, acompanhada de gente que sabe usar todos os garfos, procuro comer como se deve. Afinal, viver em sociedade é isso: abdicar de seus prazeres incautos em prol da boa educação. Porém, nossa mãe, é tão difícil resistir a fazer a gororoba que acabo ficando meio sem jeito de comer. Fico me martirizando: "Pego o feijão primeiro e o arroz depois? Cortar só um naco da carne e comer com a batata? Oh, meu Deus, qual o gosto eu quero sentir primeiro???"
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TODOS!!!
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Receitinha para quem quiser tentar: arroz com alho, feijão carioca bem cozido e com caldo, ovo frito, farofa de cuzcuz e carne moída. De preferência, que tenha sobrado do almoço de ontem. Jogue tudo em um prato, junte uma colher de chá de margarina e deixe aquecer 50 segundos no microondas. Retire, misture tudo com um garfo, amassando até adquirir uma única coloração amarronzada. Retorne ao microondas e deixe mais 30 segundos. Voilà! Uma perfeita e deliciosa gororoba!
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Por falar nisso, fiquei com água na boca agora... Vou lá na cozinha ver o que tem para misturar! Renda-se você também!
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Nossa, como eu adoro uma gororoba!